Cheiro de terra
Quis o destino que eu nascesse numa terra distante, que desconheço quase por completo. Com menos de dois anos os meus pais retornaram de Luanda, capital de Angola, onde abri os olhos para o mundo, mas da qual não guardo memórias, a não ser as descritas pelos meus pais.
Fui morar na terra onde a minha mãe nasceu, numa pequena aldeia transmontana, chamada S. Lourenço, no Concelho de Chaves. Ali passei a minha infância e a minha juventude, antes de ingressar na Universidade e mudar-me de armas e bagagens para o Porto e, cinco anos mais tarde, para S. Mamede de Infesta.
Apesar do afastamento, e porque os meus pais ainda lá vivem, sinto que um pedaço de mim ficou sempre lá. Por muito que me sinta bem no sítio onde moro agora, sinto alguma falta ao cheiro da terra que circundava a minha casa. E esse cheiro é insubstituível.
Não me posso queixar da minha actual casa, onde tenho um jardim com bastantes plantas e espaço para a minha filha brincar. Mas acaba por ser um pequeno oásis, incomparável com a imensidão a que estava habituado. Se de um lado tenho um jardim, do outro tenho uma estrada movimentada. Se de um lado tenho a calma, do outro lado tenho o barulho citadino.
É certo que lá havia um frio gélido, que me trazia sempre com um pingo no nariz. Mas a geada matinal, nos dias de Inverno, deixava um manto branco por todo a paisagem. Os ventos fortes, que cortavam a pele, faziam sentir o lar mais aconchegante. A neve, que não cai aqui, era um momento único de brincadeira. As chuvas, que alagavam os caminhos barrentos, tornando-os impraticáveis para os automóveis e para os pés menos apetrechados, lavavam a paisagem e a alma. E o sol quente e insuportável do Verão, diminuía o ritmo da vida, que hoje nos impede de parar para pensar. E o granito das grandes fragas, conseguia conviver harmoniosamente com a terra e o que dela nascia. E o cheiro, sim, esse cheiro da terra...
Alguém me disse que o grande problema da humanidade é que vive a chorar o que não tem, em vez de ser feliz com o que consegue ter. Em parte é verdade, e eu evito fazer parte desta norma vigente. Mas também é verdade que quem já se deitou à sombra de uma árvore, olhando o céu por entre as folhas e sentindo o odor da sua terra à sua volta, jamais consegue esquecê-lo. Esse cheiro entranha-se na memória, e passa a fazer parte de nós.
Comentários
Se calhar a soluçao é voltar... mas entao vais ter saudades de Porto.
Acho que é verdade: choramos o que nao temos, e sempre vai ser deste modo.
Mas esta vontade de querer ter o que nao temos faz que nao fiquemos parados no tempo... é mesmo bo, nao é?
(PS: 1º em comentar, :D)
Colocado por: danirmartin | outubro 24, 2005 02:11 PM
Este teu último paragrafo é uma coisa fantásica e diz tudo.
Colocado por: mad | outubro 24, 2005 02:20 PM
Parabéns pelo vosso novo Projecto, voltarei !
Colocado por: Finurias / Sanitas | outubro 24, 2005 02:38 PM
Ó cidadão do mundo Jorge, de Angola para Chaves e depois para S. Mamede de Infesta, que infestada de saudades o trouxe a uma cidade rodeado de jardim por todo o lado, menos um, porque cidadão que se preze tem de ter o lado urbano, por que de cidadão e urbanidade tem que ter qualquer cidade!
Colocado por: soslayo | outubro 24, 2005 02:47 PM
Gosto especialmente desse cheiro a terra no verão, depois de uma chuvada. :o)
Mas olha que também não estás mal em S. Mamede! Se não fosse guardar tantas memórias de infância do lugar, diria que S. Mamede é a típica cidadezinha (ou vila?) periférica, com todos os seus defeitos e virtudes. Mas não. Apesar de ter mudado muito nestes últimos anos - e eu com ela - continuo a achar-lhe qualquer coisa de especial. Ainda me lembro de brincar com as minhas amigas na velha estação, um espaço semi-abandonado (na altura) e inóspito que preenchíamos com a imaginação. Já não faço ideia do que é feito dessa estação - nem das amigas... Como o tempo passa!
Colocado por: DK | outubro 24, 2005 04:27 PM
DK,
pior que não saberes da estação, é não saberes das amigas. Na pior das hipóteses, no lugar da velha estação, esta um qualquer mamarracho moderno.
Jorge,
embora não sinta o apelo da terra, gosto de lá voltar. Não sei se pelas pessoas, se pelas recordações. E o cheiro ... o cheiro a lareira acesa no inverno.
Colocado por: Karla | outubro 24, 2005 05:20 PM
Semelhanças: também eu "conheço" África pelos relatos dos meus pais; também eu estou nas redondezas da Invicta (um bocado mais afastado, ainda assim).
Diferenças: nasci mesmo na Invicta e só tive uma passagem por território Sul-Americano, ainda novo.
É sempre bom deixar correr este tipo de sentimentos para o "papel". Gostei...
Saudações
Colocado por: Carriço | outubro 24, 2005 05:29 PM
Dani,
só agora pude responder, dado que estive longe do computador até agora. É verdade, somos um poço de ambiguidades. Mas voltar, pelo menos agora, está fora de questão. Constituí família aqui, já não há volta a dar. ;-)
Colocado por: Jorge | outubro 24, 2005 06:08 PM
Mad,
obrigado, com um elogio destes fiquei sem saber onde me meter. :-)
Colocado por: Jorge | outubro 24, 2005 06:13 PM
Finurias,
volta sempre, já sabes que és muito bem-vindo. :-)
Colocado por: Jorge | outubro 24, 2005 06:14 PM
Soslayo,
é verdade, eu também gosto da cidade onde vivo, que até há pouco tempo era uma vila, tal como gosto de Chaves. Mas lá morava a 7 quilómetros da cidade, era diferente. Enfim, é aquele sentimento de saudade tão português...
Colocado por: Jorge | outubro 24, 2005 06:19 PM
Soslayo,
é verdade, eu também gosto da cidade onde vivo, que até há pouco tempo era uma vila, tal como gosto de Chaves. Mas lá morava a 7 quilómetros da cidade, era diferente. Enfim, é aquele sentimento de saudade tão português...
Colocado por: Jorge | outubro 24, 2005 06:19 PM
DK,
passo às vezes pela estação, mas nunca lá parei. A vila passou a cidade, na viragem do milénio (não sei exactamente quando) e ainda é uma terra especial. :-)
Mas eu moro naquela parte a 100 metros do Porto, onde já sente o cheiro a cidade em crescimento...
Colocado por: Jorge | outubro 24, 2005 06:24 PM
Karla,
para já, se é a mesma, a estação está de pé.
E o cheiro a lareira e aos fumados pendurados à sua beira são também um cheiro excelente. :-)
Colocado por: Jorge | outubro 24, 2005 06:26 PM
Carriço,
é engraçado como há vidas que têm muitas semelhanças e, às vezes, estes textos ajudam a encontrá-las. Um abraço.
Colocado por: Jorge | outubro 24, 2005 06:30 PM
Jorge: sabes bem, pelo que às vezes escrevo e porque já falámos sobre isso, que também me sinto um pouco assim, arrancada das minhas raízes, muito embora eu tenha sido arrastada de cidade para cidade, mas há que ter em conta que esta outra cidade fica do outro lado do mundo. É diferente, outros hábitos, outras gentes, outro clima, outro céu, outro tudo... Por muito que gostemos do sítio onde estamos, nada nos fará esquecer das nossas origens, de onde brincámos, onde fizémos amigos, onde fomos felizes, enfim.
Mas por vezes as memórias são bem mais agradáveis que a realidade e ao voltarmos descobrimos que afinal não era assim tão bom, que fantasiámos um pouco, que já nos adaptámos, que nada volta a ser como dantes...
Colocado por: Noite | outubro 25, 2005 02:31 AM
Noite,
é verdade, eu próprio não sei até que ponto me adaptaria outra vez ao mesmo tipo de vida. Mas fica sempre algo muito forte, que me liga para sempre àquele lugar.
Colocado por: Jorge | outubro 25, 2005 10:54 AM