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Sossego, por favor!

9 da manhã. A custo abro os olhos, com a sensação de que fiquei em falta para com o sono. Os alicerces do meu prédio tremem a cada 5 minutos, devido às obras da construção no terreno ao lado. Na minha cabeça lateja a voz da vizinha de cima, a cantar ópera chinesa. "Tanto hás-de cantar que aprendes", penso. Não, aturar isto todo o dia, não. Quando começa, é para todo o dia.
Saio para a rua, para ver se me livro da barulheira. Imagino-me a andar pela cidade tranquilamente, sem barulho, sem muita confusão. Sou brutalmente acordada dos meus pensamentos por um palhaço que vem em contramão. "piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, é assim, ó animal?". Chego ao centro da cidade e páro no semáforo. Conto 9 motas à minha frente, 3 à esquerda e 2 à direita. Às de trás, perco-lhes a conta. O sinal abre e deixo passar toda aquela procissão. À minha frente, o bailarico do costume: cruzam-se e entrecruzam-se como se não houvesse regras. Por momentos esboço um sorriso maléfico enquanto me imagino a arrancar e a levar uns quantos à frente (às vezes apetece), mas controlo os meus instintos mais primários e espero até que se diluam. Entretanto, uma série de peões com problemas de daltonismo aproveitam para atravessar.
Dou-me conta da quantidade de gente que anda na rua e penso que se calhar o bate-estacas como música de fundo e a desafinação da vizinha de cima não seriam piores que aquele caos que se instalou na baixa da cidade. Há uns anos podia andar-se ali calmamente. Há uns anos. Arranco. Mais à frente, uns quantos autocarros de turismo parados na faixa de rodagem dificultam a passagem a quem tem bem mais que fazer. A polícia? Essa deve estar muito entretida a multar quem excedeu o tempo do parquímetro. Páro noutro semáforo. Ao meu lado esquerdo, numa acelera, um casal aproveita a brecha do sinal vermelho: ela segura no telemóvel enquanto ele fala. Ambos levam capacetes de bicicleta. Ao meu lado direito, noutra motoreta, uma senhora leva atrás uma criança que não tem mais de 3 anos, atrelada a si por uma cinta das que costumo usar nas malas de viagem.
Ligo o rádo. O Jorge Palma canta "na terra dos sonhos podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal..."
Estou no paraíso!

Comentários

Noite,
Se eu não soubesse que estás em Macau, diria que era uma "tranquila" manhã lisboeta.

Noite,
nada mau, teres o Jorge Palma, para compensar. Mas gostava de ter essa adrelina toda por cá. ;-)

Noite, teria sido melhor teres ficado em casa pois o stress seria menor mas, deixa-me que te diga que estamos em igualdade de circunstâncias pois, por cima do meu andar onde moro, tenho também uma vizinha que logo pela manhã começa a treinar a voz para a ópera e tem uma voz tão aguda que aquilo atravessa as paredes do prédio e entra-me nos tímpanos que é um Deus me acuda... Hoje foi um dia desses.

Karla: por aqui é um bocado mais agitada e mais intensa... é por demais extasiante, acredita!

Jorge: eu mando-te a adrenalina, pá, não seja por isso! ;)

Soslayo, pois sim, eu é que fantasiei um centro da cidade como já não vejo há anos... esqueci-me do pequeno pormenor de a cidade agora ter quase mais turistas que residentes...
Estamos bem de vizinhos, estamos... :)

blog novo! vi ag no teu blog. E eu tão arredada e vcs tão caladinhos, Noite!
Q malandra deixares-me ficar na ignorância :)

Terrível descrição... mas bem feita.


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