Ainda e sempre a Palestina

Photo © Arna Ösp Magnúsardóttir
Hoje o mundo surpreendeu-se com o resultado das eleições na Palestina. Confesso que não me surpreendi. Os 76 lugares conquistados pelo Hamas, contra os 43 da Fatah, num parlamento de 132 lugares, são um resultado de há muito previsível. Porque um povo cansado de promessas vota naqueles com quem se identifica na luta e no sofrimento. E esse é o papel do Hamas, dado que a Fatah, pelo facto de liderar desde sempre os destinos da Palestina, foi obrigada a um maior afastamento do povo.
Por outro lado, o povo israelita não escapa a esta lógica. Por algum motivo, após a morte Ytzak Rabin, colocou Benjamin Netaniahu no poder. Porque ele se identificava com a desconfiança e o medo que o caminho para a paz percorrido por Rabin significava.
Hoje vi alguns textos sobre o assunto, tanto nos blogs como na imprensa on-line. E chocou-me algumas das palavras e ideias defendidas.
Em primeiro lugar, parece-me que não se pode reduzir a luta contra Israel a um discurso anti-semita. Não é por Israel ser um estado judeu que poderá ter mais ou menos direitos. O facto de estar constantemente sob pressão dos países seus vizinhos não justifica o uso da força de forma desmesurada, o olho por olho, dente por dente. Não quero com isto apoiar quem pratica os atentados contra civis. Mas as respostas israelitas só prolongam eternamente o caos.
Outra das questões que me deixa abismado, é a tentativa de colar a esquerda ao apoio ao Hamas, enquanto a direita será pró-israelita. O caminho para a paz não é, não pode ser, dependente da força que está no poder em cada momento. O caminho para a paz tem de ser percorrido por todos, esquecendo as diferenças ideológicas.
Para o mundo talvez fosse mais fácil que a Fatah continuasse a liderar a Palestina. Mas o povo escolheu o Hamas. E o povo é que decide. Não quero com isto dizer que não haja alguma apreensão, por ser incerto o caminho que o Hamas vai percorrer. Mas esta pode também ser uma oportunidade.
Se os países influentes (onde já se sabe que não se pode contar com os Estados Unidos) olharem para os resultados de hoje como uma oportunidade, poderão convencer o Hamas a enveredar pelo caminho da paz, a reconhecer o estado de Israel e a, junto com a Fatah, criar um governo de união para uma transição para a paz.
Pode parecer utópico, mas não é tanto. Se a Fatah tivesse ganho, o Hamas estaria de fora, e poderia boicotar as resoluções com que não concordasse. Com a actual situação, os riscos acabam por ser menores. Com o Hamas à mesa das negociações, com a Fatah como aliada, há uma grande maioria representada. E se estes dois não se entenderem, então nunca mais haverá paz na Palestina.
É preciso que se coloquem de lado os preconceitos e se avance no sentido da paz. Porque a Palestina, tal como Israel, merece a paz. E o mundo também.
Comentários
De facto os Palestinos e Israel merecem a paz,e, nos tambem. mas hade convir que um partido que tem advogado pura e simplesmente e eliminacao de Israel, e, com actos contra civis tem demonstrado que e isso que deseja, deixa qualquer um desconfiado e pessimista. Ainda gostaria de saber se esses extremistas pensavam da mesma maneira se Israel fosse um pais subdesenvolvido como e a Parte da Palestina, lembrem-se que ha cerca de 50 anos atras tudo era um puro deserto e os israelitas transformaram-no num jardim.
Colocado por: a. cardoso | janeiro 27, 2006 05:39 AM
a. cardoso,
não estou, de modo algum, a defender os actos de terrorismo. O que me parece errado é não transformar essa desconfiança numa oportunidade para a paz. A Fatah também tem os seus radicais, tal como o Hamas, mas acabou por reconhecer o estado de Israel. O Hamas também pode acabar por fazê-lo.
Quanto à questão da riqueza de Israel, eu também me pergunto se os Estados Unidos teriam actuado no Kuwait se não houvessa petróleo.
Colocado por: Jorge | janeiro 27, 2006 09:18 AM