Mais um dia
O dia começou, mais um dia. O barulho dos carros e os passos apressados das pessoas já se fazem sentir. O Faísca está acordado e a olhar para mim, esperando um sinal meu para me dar a primeira lambidela do dia.
Esta noite ninguém me chateou e consegui dormir descansado. De vez em quando há alguém que não me quer à porta do prédio e chama a polícia. É engraçado que de dia sou quase invisível, mas à noite as pessoas reparam em mim. Desta vez não tive problemas.
O Faísca já deve estar com fome. Arrumo o cobertor no carrinho de mão que anda sempre comigo, encontrado numa lixeira há algum tempo. No talho do Sr. António há sempre um osso para o Faísca. Por vezes, no Natal, na Páscoa, ou quando ele vê que estou um pouco adoentado, diz-me para passar por lá na hora do almoço, para me dar um pouco do seu.
Depois de tratar do Faísca, passo pela padaria do Sr. Carlos, que tem sempre uma regueifa para mim. Depois, no restaurante do Sr. Zé, ele dá-me um copo de leite e um pacotinho de manteiga para o meu pequeno almoço. O Sr. Zé dá-me ainda a sopa ao almoço e ao jantar.
Durante o dia, percorro as lixeiras dos bairros mais ricos. De vez em quando lá se encontram umas latas de conserva fora do prazo, ou uns pêssegos enlatados, que sempre dão para uma refeição diferente. Se tiver sorte, ainda encontro alguns objectos interessantes, como o carrinho de mão, que me dá um grande jeito, um cesto e uma almofada, que servem de cama para o Faísca, e ainda um tacho, que me serve para transportar a comida.
À hora da missa vou para a porta da igreja, tentar arranjar alguns trocos, que vou juntando religiosamente, tirando alguns copitos de vinho para afastar a amargura. Hoje, as pessoas já não dão tantas esmolas, com medo que o dinheiro vá ser gasto em drogas.
E assim vou passando o dia, até que a noite me leva para algum recanto mais abrigado onde possa dormir.
O Sr. Zé arranjou-me o cobertor e vai-me arranjando uns cigarritos, para matar o vício antigo. Aquelas pessoas foram-me aceitando aos poucos. Tanto o Sr. Zé como o Sr. António e o Sr. Carlos estão sempre preocupados comigo. Quando adoeço dão-me alguns dos seus remédios. Uma vez, levaram-me ao hospital, enquanto tomavam conta do Faísca. Também me arranjam roupas que já não usam, sempre que as minhas dão sinais de não aguentar muito mais.
Eles são os poucos que sabem porque eu ando nesta vida. Sabem como eu gastava todo o dinheiro que ganhava, deixando a mulher e os três filhos em casa passar necessidades. Um dia, um acidente deixou-me sem dois dedos e sem trabalho, e vim-me embora para a cidade, à procura de melhor sorte. E depois de dois empregos breves, acabei nas ruas.
Não soube mais da mulher nem dos filhos. Penso que eles também não querem saber de mim. Quando saí de lá pensava voltar, com dinheiro, para reparar a minha má conduta anterior. Mas agora perdi tudo, não posso voltar...
Um dia arranjaram-me um bilhete de comboio, deram-me banho e barbearam-me, vestiram-me com uma roupa melhor, e ainda me puseram cinco contos no bolso, para eu poder voltar. Não passei da porta da estação...
(conto publicado a 3 de Maio de 2005)
Comentários
vocês hoje estão ...
fico sem palavras
Colocado por: Sofia | janeiro 30, 2006 03:50 PM
pois é sofia,
o jorge é um belíssimo contador de histórias. :)
Colocado por: Karla | janeiro 30, 2006 04:41 PM
O nosso Jack London:)
Colocado por: bin | janeiro 30, 2006 05:28 PM
E eu quero um Joe Black (miau...)
Lindo conto... arrepiante. Eu já estava arrepiada com frio, mas mesmo assim senti os secundários.
Não, não digo onde eheh.
Colocado por: Loba das Estepes | janeiro 30, 2006 08:39 PM
Sofia,
nós não queremos que ninguém perca nada ao vir cá, queremos sempre que fiquem a ganhar. :-)
Colocado por: Jorge | janeiro 30, 2006 09:33 PM
Karla,
belíssimo, sem dúvida, contador de histórias, não sei... ;-)
Colocado por: Jorge | janeiro 30, 2006 09:39 PM
bin,
eu é mais Jack Nicholson, especialmente no filme "The Shining" e "Voando sobre um ninho de cucos"
Colocado por: Jorge | janeiro 30, 2006 09:40 PM
Loba das Estepes,
obrigado! :-)
Os arrepios são por conta da casa... ;-)
Colocado por: Jorge | janeiro 30, 2006 09:41 PM
Pode ser uma história bem contada pelo Jorge. Mas quantas histórias idênticas a esta proliferam por aí neste nosso portugal. Nada arrepiante porque se trata duma realidade expectante.
Colocado por: soslayo | janeiro 30, 2006 10:03 PM
soslayo,
é verdade, esta é uma história demasiado real, apesar de ficção. :-(
Colocado por: Jorge | janeiro 30, 2006 10:08 PM