« Saudade | Principal | Há coisas... »

Terroristas? Quais Terroristas?

Palestine.jpg
Photo © Salim Yaqub



"Na África do Sul, os africânderes consideravam-se como «um povo e uma nação à parte, ocupando a terra dos seus antepassados, (…) falando uma língua dada por Deus(…), e destinados por Deus a reinar (nessa terra) para civilizar as populações pagãs*».

É precisamente isso que a maioria dos israelitas se considera, incluindo os laicos que votaram em Sharon.
É preciso, pois, começar a procurar um de Klerk israelita. (…)

Ironicamente, no momento em que acabava o apartheid na África do Sul (início de Maio de 1994), o Estado de Israel começou a erigir um novo apartheid na Palestina através da assinatura do primeiro acordo Gaza/Jericó. Ao contrário da África do Sul, onde os velhos métodos de separação e de aquisição de terras pelos brancos tiveram de acabar a partir do início das negociações, na Palestina, pelo contrário, eles intensificaram-se. Do mesmo modo, ao contrário do governo branco de de Klerk, que regularizou a questão das confiscações de terras durante os três anos de negociações com o ANC de Nelson Mandela, o governo de Yitzhak Rabin permitiu o prosseguimento de colonatos na Cisjordânia e noutros territórios, como se os acordos de Oslo nunca tivessem sido assinados.

O governo de apartheid sul-africano expulsara as populações negras das suas terras, obrigando-as a viver em homelands, e distribuíra a terra aos brancos. Os sucessivos governos israelitas, do Likud ou do Partido Trabalhista, aplicaram a mesma política de «limpeza étnica» na Palestina. Quanto ao parlamento israelita, legalizou o sistema.
Durante os sete longos anos do processo de paz, prevaleceram duas legislações na Palestina: uma para os judeus e outra para os palestinianos. Os judeus tiveram liberdade de circular, construir e expandir-se, ao passo que os palestinianos foram acantonados em bantustões. Os israelitas adquiriram terras e expropriaram muitas outras, enquanto os palestinianos, limitados por interdições de circulação, nem sequer tinham acesso físico a essas terras. Israel manteve uma rigorosa separação entre os colonos judeus, que viviam sob legislação e protecção israelita, e os palestinianos, que viviam sob a legislação e segurança palestinianas. Tal como a África do Sul atribuíra aos dirigentes dos homelands uma soberania que eles não podiam exercer, também o Estado de Israel quis dar à Autoridade Palestiniana uma certa liberdade dotada dos sinais aparentes de uma soberania, mas que aquela não tinha possibilidade de exercer.

Tal como a África do sul dominou e controlou os black homelands, também o Estado de Israel conservou o poder, o controlo e a soberania nos enclaves autónomos. Controla também as terras, a água, os recursos naturais, a circulação de pessoas na Cisjordânia e na faixa de Gaza, os fluxos de mercadorias dentro e fora dos bantustões palestinianos.

Tal como na África do Sul, durante o processo de Oslo cavaram-se diferenças profundas entre israelitas judeus e palestinianos (nível de vida, acesso à educação, à saúde, ao emprego), diferenças que, en certos casos, não pararam de se agravar. Se o desemprego dos israelitas palestinianos diminuiu, na faixa de Gaza passou a atingir 40 por cento da população (tal como na África do Sul), e o nível de vida baixou 25 por cento em sete anos.
Mas, tal como na África do Sul, para o Estado de Israel não se tratava apenas de interesses materiais. Os israelitas, como os africânderes, têm uma característica comum: estão irremediavelmente prisioneiros da sua mentalidade defensiva.

Sete anos mais tarde, os palestinianos, como todos os povos colonizados, exigiram que fosse posto termo à ocupação e ao apartheid, condição essencial para a paz. Recusaram também o acordo-quadro final, elaborado a partir do modelo vago e geral dos acordos de Oslo. Rebentou então a segunda Intifada.

De imediato, o exército israelita interveio segundo planos precisos há muito preparados. O governo de Barak atacou os palestinianos em duas frentes distintas: no terreno, na Cisjordânia e na faixa de Gaza, e até em Israel, utilizou a punição colectiva e a violência excessiva; na frente internacional, lançou a guerra dos media, o que era indispensável para conservar, perante o Ocidente, a sua imagem de vítima, tarefa delicada quando o poderoso «Golias» israelita, armad até aos dentes, defrontava o pequeno «David» palestiniano, lançador de pedras.

O Estado de Israel não podia ganhar batalhas no terreno e perder a guerra da opinião pública internacional. Levou então a cabo uma campanha destinada a apresentar a população palestiniana como «desumana» e a desacreditar os seus dirigentes.
Foi necessário as forças de segurança israelitas matarem treze cidadãos israelo-palestinianos árabes e fazerem centenas de feridos nos primeiros dias de repressão, em Outubro de 2000, para o mundo tomar consciência de que um milhão de palestinianos viviam em Israel como cidadãos de segunda, submetidos a um sistema que apresentava algumas características de apartheid.

Extracto do livro Palestina – Israel, A Paz ou o Apartheid de Marwan Bishara, Fevereiro de 2001


Olhando hoje para o resultado ainda não definitivo das eleições na Palestina, depois das pressões veio ao de cima o espirito democrático britânico e os outros.

Não considero o Hamas um movimento terrorista. Recordo aqui isto. Recordo também Ahmed Yassin e Abdel Rantissi.

Penso que toda a gente tem noção das atrocidades que tem sido cometidas contra o Povo Palestiniano durante anos a fio, é para mim perfeitamente justificável que o povo palestiniano responda a essas mesmas atrocidades, ao apartheid criado pelo Estado de Israel.

É também muito interessante a opinião do amigo Luis, principalmente numa altura em que muitas memórias são curtas. Estas organizações, como afirmei anteriormente, lutam contra a opressão que o seu povo é alvo.
Não tentem branquear a história, porque ela não pode ser branqueada.
Continuo sem perceber como um povo que foi vitimas de uma das maiores atrocidades que há memória na história da humanidade, faça exactamente o mesmo a outro povo.

Revolta-me, indigna-me e agita-me o sangue. Mas pelos vistos não só mim. Também aqui e aqui.

Isto que está a acontecer na Palestina, dá que pensar em relação ao Iraque e outros países no mundo onde dizem por ai que existem organizações terroristas.

E se ele e e ele se candidatassem?


* Oxford History of South Africa, vol. II,Oxford, 1971, p.301.

TrackBack

Lista de blogs que fazem referência a Terroristas? Quais Terroristas?:

» Terroristas? Quais Terroristas? II de ante et post
Todas as fotos estão neste Livro "The greatest Zionist and Israeli crime against me and six million other Palestinians is that they have deprived us of living in our ancestral homeland, Palestine, as citizens of our independent undivided Palestinian... [Ler mais]

Comentários

Esperemos apenas pelo melhor para o Mundo...
(dito num suspiro)

Bin,
já tinha lido o texto do Luís Rainha, ainda não o da Maria.
No fundo a história repete-se, apenas o local, os objectivos e os motivos são diferentes.

Bin.... obrigado pelo fantástico post!
Seria preciso mesmo um enorme movimento a nível mundial para resolver esta questão... e realmente é impressionante como um povo tantas vezes mal tratado pode fazer o mesmo a outro!

Obrigado bin,
com esta clareza, ajudas a que se perceba bem o conflito israel-palestina.

Bilhas,

e porque não um movimento desses? Já surgiram tantos do nada...
na net tudo é possivel.

Não conhecia este teu blog amigo Bin e cheguei a ele através da Emíele. O terrorismo internacional como já demos conta tem sido promovido pelos EUA. É evidente que a luta dum povo subjugado também pode passar por aí tendo em vista o luta armada desencadeada pelos movimentos de libertação das colónias africanas. Isto nada tem com motivações religiosas mensagem que repetitivamente tem sido passada pelos Blairs Bushs e quejandos. Óbviamente que os palestinianos usurpados que foram da sua terra não tiveram outra alternativa que não fosse recorrer a acções de terrorismo uma vez que pela via pacifica
jamais os israelistas lhe reconheceriam o direito ao seu território. Os movimentos de libertação da Palestina já perceberam pelas provas dadas por Israel que só conseguirão os seus intentos pela via do terror pois caso contrário jamais entregarão
na posse do seu território.
O rótulo de terroristas que possuem não lhes retira mérito à sua luta. Aquele abraço do Raul

Óbviamente que pretendia escrever "entrarão na posse do seu território"

"O terrorismo internacional como já demos conta tem sido promovido pelos EUA" - Bin Laden não diria tanto, mas andaria lá próximo.
O terrorismo nunca poderá ser um meio para atingir a paz.

Devia ter escrito primeiro o comentário antes de ter linkado o post, não é?
Mas achei que era bom que quem passasse pelo Pópulo, fosse lendo várias opiniões complementares. E referi primeiro o Luis Rainha porque tinha acabado de o ler. Depois é que alarguei as visitas e cheguei aqui... É bom saber que estamos bem acompanhados!!!
É claro que não sou anti-semita, mas os falcões de Israel têm feito mais contra o seu povo do que os seus inimigos oficiais.

Emiéle,
nós é que estamos bem acompanhados, contigo aqui. Estava a ver que nunca mais aparecias... :-)
Entretanto, e depois de tantas barbaridades que ouvi, senti-me na obrigação de escrever um novo post. Uma delas é essa, quem é contra Israel é anti-semita, discurso mais redutor é impossível.

Podera ter razao em algumas coisas que escreve, mas esquece-se de uma coisa muito importante, Israel tem que ter uma atitude defensiva pela historia recente de ataques vindos de todos os lados, sabe o que aconteceu na guerra dos seis dias, quando um pequeno pais foi invadido pelos exercitos do Egipto, da Jornania e da Siria, e foi para defender-se que Israel teve conquistar algumas areas para ter espaco e, para defender os seus cidadaos. Eu sei que os judeus nao sao nenhuns santinhos, mas pelo menos nao atacam civis indiscriminadamente.

Olá Amigo Raul,

Eu não lhe chamaria acções terroristas, mas sim acções paramilitares.
Elas são efectivamente necessárias, foram necessárias ao longo da história, sei lá na Nicarágua por exemplo, na Bolívia e noutros paises, não só das Américas, mas também, como bem referiste em África.

Parece que é moda chamar a estes movimentos - movimentos terroristas.

É de facto o caminho mais fácil. Não se dissecar e perceber o que faz com que existam estes movimentos.

Seguramente, eu, se vivesse na Palestina e fosse um civil vitima desta barbárie que tem consecutivamente atingido o povo palestino, teria também participado em acções paramilitares ou de guerrilha.

Quando perdes tudo, mesmo tudo, a casa, o alimento, a familia, o teu sustento, nada te resta, a não ser a tua dignidade e honra enquanto ser humano. Estás de facto no limite da existência, então lutas, lutas porque nada tens a perder. nada. nem a vida. por já perdeste tudo.
É a este nível de existência humana que as acções (elas sim de terrorismo de estado) do Estado de Israel têm levado o povo palestino.

Sejam então rotulados de terroristas, ou do que o que lhes quiserem chamar. Mas no fundo são lutadores pela sua liberdade e auto-determinação, contra a opressão e este verdadeiro apartheid que infelizemente existe na Palestina.

Aquele Abraço,

Bin

Nikonman,

a única coisa que me cabe dizer é que quando as pessoas virem e cheirarem a morte, a fome e a opressão com os próprios olhos e com os próprios narizes.
Concerteza, que entenderam a luta chamada de terrorista do povo palestino. e infelizmente não só. Falo do Congo, do Rwanda, do Afeganistão e não só.

Quando chegas ao teu limite, tudo é possivel.Tudo pode acontecer.

Eu sei que não és anti-semita, Emiele.
Dizes bem quando afirmas que "...os falcões de Israel têm feito mais contra o seu povo do que os seus inimigos oficiais."

Jorge tens razão quando dizes "...quem é contra Israel é anti-semita, discurso mais redutor é impossível."

Faz lembrar o Bush no 9/11...
A visão mais primária dos problemas.

Caro A.Cardoso,

A guerra dos seis dias foi em 1967. Quando o chefe do estado maior israelita Moshé Dayán decide no dia 5 de Junho de 1967 invadir os Montes Golan,a Siria, a península do Sinaí de Gaza ao Egipto, a Cisjordania e a Jordânia.
Há quem afirme que tudo começou com a Guerra do Suez em 1956. Existem outras visões da história que afirmam que tudo começou em 1948.
Eu pessoalmente acho que sim. É preciso olhar para a história, com seriedade. o Problema não é de ontem nem de anteontem.
Os Muçulmanos e Cristãos forma efectivamente expulsos das suas terras em 1948 pelos Judeus, isso é indesmentível, foram na Tiberia, em Jaffa, em Saffad, em Acre, em Haifa, em Lydda, em Ramle, em Jerusalem, em Ein Karem, Huj no distrito de Gaza fo pura e simplesmente destruida e em muitas outras aldeias, vilas e cidades. Sabias por exemplo que o Edificio Municipal de Jerusalem foi ocupado em 1948 pelo Barclays Bank?

Eu brevemente postarei aqui fotos desses locais, é bom que as pessoas não se esqueçam destas coisas e que não tenham memória curta.

O povo árabe vive e viveu em coexistência pacifica com cristãos e judeus em muitas partes do mundo, basta olhares para Marrocos por exemplo.

Não estou a dizer que os árabes não cometeram erros , nada disso apenas estou a lançar para a discussão outros elementos de que nunca se fala. nunca.

Haverá maior terror do que o que desde 1948 até hoje foi perpetuado na Palestina?

Vocês botam muita informação o que causa cansasso na leitura!
Procurem colocar coisas mais resumidas.

Atendam o meu pedido.
ass:Rogério


online