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Contos da minha janela I - o fumo

A rapariga senta-se no pequeno muro. Com uma camisola de gola alta e um casaco comprido, ambos bejes, umas calças de ganga boca de sino, e umas sapatilhas castanhas. Parece insensível ao frio que a rodeia. As poucas folhas que ainda povoam o passeio, confundem-se com ela, tristes, abandonadas.

Tira do bolso uma daquelas carteiras em pele que a impedem de ver o aviso: "Fumar mata!". Tira de lá um cigarro, pelo tamanho deve ser um Marlboro 100's. Coloca o cigarro nos lábios, languidamente. Fica alguns instantes assim, pensativa.

Depois tira um isqueiro prateado e fica a olhar para ele. Estará a ver a sua imagem reflectida no espelho? Não creio, deve estar a pensar naquele rapaz que lho ofereceu, há alguns dias. Sim, esta era a primeira vez que ela fumava sozinha. Antes, todas as segundas, quartas e quintas, encontravam-se os dois e fumavam um cigarro, juntos. Cada um dava uma passa, alternadamente. A última passa era dada por ele, passando-lhe o fumo num beijo final, antes de saírem de mãos dadas.

Hoje ela está sozinha. Acende finalmente o cigarro. O seu olhar parece distante. Os lábios vão sorvendo, lentamente, o fumo, para depois, de forma calma, se moldarem, de forma a saírem, em cadência, pequenas argolas de fumo.

Subitamente, uma das argolas deforma-se, e ganha a forma de um coração. É nesse momento que uma lágrima escorre pela sua face. Baixa a cabeça, deixando cair os seus longos cabelos para a frente, ficando alguns momentos assim.

Depois, levanta a cabeça, limpa com a mão esquerda as lágrimas, enquanto na outra mão coloca o resto do cigarro, entre os dedos polegar e médio, de modo a atirá-lo para longe. Levanta-se e segue o mesmo caminho de sempre.

Comentários

Olá, Jorge

Cá vim espreitar o Ante. Vou tentar ser mais assídua, ok?

Beijinhos :)

pachita,
vai aparecendo sempre, não apenas quando o SLB ganha, OK? ;-)
Beijinhos.

Um conto cheio de expressão corporal. :)

Que aconteceu ao rapaz?

Karla,
como posso saber? Para isso tinha de sair da minha janela...

gostei do q li, a vida está repleta de perdas.Temos de aprender a viver com elas e implica crescimento.Nada acontece ao acaso; o Homem é um ser dinâmico.......

isabel,
obrigado, ainda bem que gostaste. :-)
É isso mesmo, temos de viver com essas perdas, com o sofrimento inerente, dar a volta por cima.

O gajo foi passar o carnaval ao Brasil e não levou a miúda, caraças.

Pré,
pois, é uma possibilidade ;-)


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