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Crónicas de viagem I - As focas

O mar estava calmo e uma ligeira névoa cobria o horizonte. À parte o zumbido que se ouvia das turbinas, capaz de abafar alguma voz a pouco mais de dez metros de distância, passe a ironia da afirmação, quase se poderia dizer que o silêncio era ensurdecedor. Aquele poderia ter sido um dia igual a todos os outros desde que o chefe Palhinhas me ofereceu o terceiro quarto. Mas não foi. O terceiro quarto, além de me obrigar a deitar quase às cinco da manhã, obrigava-me a almoçar às onze, ainda meio estremunhado que só o banho, antes da primeira refeição, se esforçava para me abrir os olhos. Daí o silêncio. Entre o meio-dia e as quatro da tarde, tirando os artífices escondidos na sua oficina da casa da máquina e alguns marinheiros que arranjavam sempre qualquer coisa para fazer, mesmo que essa coisa fosse nada, a trabalhar, mesmo, só os do terceiro quarto. O meu amigo Félix era o terceiro oficial de serviço. Ar bonacheirão, gordo, aliás “anafado” como ele gostava de dizer, era uma pessoa bem disposta, tanto quanto a bordo pode ser bem disposto um recém-casado, com um filhote que ainda mal conhecia e que navegava seis meses consecutivos. Era meu amigo mas não se privava de pregar as suas partidas. As que são habituais nestas andanças eram conhecidas por banhadas, e vai não vai, esta alminha via-se encharcada dos pés à cabeça, tal alma molhada, por balde ou latão. Os baptismos eram coisas que não se deixavam passar em claro, eram praxe. Ele há praxes e praxes. Se comparadas com as que se fazem aos caloiros, hoje, nas universidades portuguesas, aquelas eram brincadeiras de criança. Sou visceralmente contra praxes mas dou-me conta que daquelas ainda sinto alguma saudade. E eu teria de ser baptizado, seria a primeira vez que navegaria no Mediterrâneo e o Estreito aproximava-se a 12 nós. Lá ía o “Neiva” um navio de grande porte e grande resistência, este “Neiva” que nem um incêndio de grandes proporções dois anos antes em Antuérpia, o conseguiu mandar para a sucata. O governo da época sim, mandou-o para a sucata, o tal que a contas ou a desculpas com crises económicas, resolveu começar a destruir toda a nossa frota marítima mercante. E dou comigo a pensar que um dia Gama foi à Índia de barco e Cabral, que não era ainda Cabral, mas sim Gouveia como rezam as crónicas do tempo, alcançou terras de Vera. Lá ía o “Neiva” cruzando o estreito e o Félix a perguntar-me se eu não tinha visto as focas. Quais focas, qual carapuça, era mas era de outro banho que eu estava à espera, e o bendito baptismo preparado (que eu pelo sim pelo não, nem pensei em voz alta não fosse o diabo tecê-las e, se não fosse isso, estaria a dar-lhes os argumentos), lá fui eu, pé ante pé, pois gostar desta praxe não significava expor-me de peito aberto. E fui sorrateiramente pelos sítios por onde não ía habitualmente, cheguei ao convés por baixo de um varandim que dava para bombordo de onde se vislumbrava já a costa do sul de Espanha algures a caminho de Algeciras e do britânico piñon e, de focas nem sombras, nem tão pouco de banhada. Vai daí, quando o Félix me perguntou se eu tinha visto as focas e me olhou com um ar de quem estava admirado mas não o dando a entender (talvez a mim que, nessa altura ainda não tinha tido nenhum daqueles cursos de análise transaccional que nos fazem desconfiar do próprio pai, adiante que a psicologia não é para aqui chamada), e eu lhe disse que não tinha ido espreitar, “vai lá, se não, deixas passar uma oportunidade única para contares aos teus netos” e eu fui! Desta vez por caminhos mais habituais e eureka! a estibordo lá andavam, aliás nadavam, as tão célebres focas do mediterrâneo, essas coisas lindas que nos circos passam o tempo a cheirar uma bola no focinho e a comer sardinha. E o balde! O inevitável balde estava escondido no varandim à espera da contemplação e nesta fiquei quase cinco minutos, antes e depois do banho, que o navio já se afastava e era necessário beber cada momento e o perfume do mar, com ou sem focas, se bebe. Só o que se não bebe é a água do óbvio banho.

O PreDatado, in Cronicas de Viagem, todos os direitos reservados.

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Lista de blogs que fazem referência a Crónicas de viagem I - As focas:

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A Literatura de viagens é um género esquecido em Portugal. Começou com os Descobrimentos mas não são muitos os escritores que cultivem o género. É por isso que devemos ler com atenção as Crónicas de Viagem do PreDatado. Depois de... [Ler mais]

Comentários

Pré,
estava eu eufórico com a vitória do Benfica, e tu também estarás, quando vim ler este post e acalmei-me. Mal posso esperar pela continuação.

Maravilha!!! Vai-nos contar histórias e peripércias da tua vida no mar? :))
FIXE!!!

Karla, não exactamente da vida do mar. Algumas cenas curiosas em viagem.

Pré... explica-me lá... estiveste embarcado!? Marinha mercante!? muiiiitttooooo nice! Mas conta conta que eu adoro histórias de mar...

Pré
eras impedido? :D

Bilhas, fui embarcado sim, na marinha mercante.

_
aNa impedido propriamente, só de beber alcool e de ler a playboy nos países árabes.


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