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Crónicas de Viagem II - Quantas bolas?

A diáspora portuguesa é grande, encontramo-la em todos os cantos do mundo desde que nos dedicámos a espalhar a fé e o império tendo sido reforçada pela guerra colonial e pelas miseráveis condições de sobrevivência que o Portugal da ditadura fez o favor de oferecer aos portugueses. Ainda hoje se emigra, mas principalmente se imigra, já que votados ao abandono os campos e o interior, devido a uma política desastrosa de fixação de populações e de incentivos à interiorização, as nossas gentes continuam a procurar o litoral, excepção feita a alguns senhores de dinheiro que de há uns tempinhos para cá descobriram os montes alentejanos. Voltando ao tema, é assim que a diáspora é grande e que quase tropeçamos em portugueses no mundo. Por vezes, quando por razões várias me desloco “lá fora” penso ter algum jeito para os/nos distinguir seja pelos traços seja pelos comportamentos. Obviamente nem sempre acerto e cometo gaffes quase imperdoáveis e nem sempre pautadas pela educação que o chá que tomei em criança faria crer. Lembro-me de um certo dia, numa das muitas lojas para turista, situadas no celebérrimo peer 39, da bonita cidade de S. Francisco, Califórnia, eu ter comentado com o meu amigo Sérgio de que os pinguins também gostam de souvenirs. Eis senão quando, aquela simpática freira baixinha, portuguesinha da silva, me olhou de soslaio, tentei disfarçar, mas depois cumprimentei elegantemente "ora viva, muito boas tardes, nós os portugueses encontramo-nos em todas as partes do mundo não é verdade?". Passado o incidente aviático-mosteiral ali ficamos uns cinco minutos na conversa, embora eu para o açoreano de S. Miguel seja meio duro de ouvido. Mas nem sempre é assim e, na verdade, até tenho algum feeling para reconhecer os portugueses sem os ouvir falar, claro, estando sempre preparado, para no caso de me enganar, assobiar inocente para o ar o Abril em Portugal, assim como quem não quer a coisa. Estávamos, eu com a minha mulher e um casal nosso amigo, a passear pelos lagos de Zurique, numa temperada e apetecível tarde de primavera, já com aquela vontade de comer um geladinho quando o Zé Manel “que não, que eu estava era a querer que ele desse barraca” e eu a insistir que ele chegasse à garota do balcão da gelataria e que pedisse um gelado de morango, assim mesmo, em português, porque embora estivéssemos ainda a uns vinte ou trinta metros de distância, com uma carinha daquelas só poderia ser uma conterrânea cá das berças. “E se ela não for portuguesa vou ficar encavacado", "não, Zé Manel, falar a nossa língua não encavaca ninguém", argumentava eu patrioticamente e, I'm sorry toda a gente entende. Pois então um sorry remediaria as coisas e straubér a gente também sabe dizer. Até deu para fazer uma aposta, se a menina não fosse portuguesa eu pagaria os gelados caso contrário a aposta seria minha e eu pouparia uns quantos francos daqueles que valiam mais de cem paus cada. Então lá fomos e o Zé Manel meio envergonhado pede, "quero um gelado por favor". "Quantas bolas?", acto contínuo, pergunta a menina ao balcão e escusado será dizer que comi o meu gelado à borla não sem o meu amigo se interrogar se eu já a conheceria antes. Este foi apenas um dos episódios do género que aqui vos trago e não termino sem antes vos dizer que a menina era uma beirã que ía fazer a saison à Suiça. Hoje mesmo as estatísticas nos dizem que o desemprego real é de onze por cento e cada vez mais vai ser uma brincadeira de crianças descobrir um português a trabalhar no estrangeiro.

O PreDatado, in Crónicas de Viagem

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Comentários

Pré,
fizeste-me lembrar de, um dia, estava eu na bela ilha de Malta, em La Valetta, à espera numa daquelas caixas tipo multibanco, quando ouço uma portuguesa a perguntar a outra:
- Qual é o código do cartão?

É verdade, há um português, em cada canto do mundo.
Mas quando vou de férias, quero mesmo, é encontrar autóctones. :))
(De preferência, loiros de olhos azuis)

Karla, és uma gulosa.

e uma vez, em Marrocos, na capital, Rabat, o carro avariado e a encrencar o trânsito e eu aos gritos com um amigo "sei lá onde vou descobrir um mecânico!" e um tipo que ia a passar responde "é já ali, na terceira rua á direita"...

Carlos Narciso, nem a propósito o meu texto da próxima-se 6ª feira chamar-se-á : É já ali.


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