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Crónicas de Viagem III - É já ali

É já ali, tinha eu sete anos de idade e juro que não foi no Alentejo. Sabemos que quando perguntamos a um alentejano onde fica determinado lugar, ele invariavelmente responde que é já ali. Mas dessa vez não foi no Alentejo. Eu tinha sete anos de idade quando fui ao casamento do Vitor e da Fátima, ao Minho. O Minho é lindo quando vestido de verde e salpicado com o vermelho das cerejas maduras. Foi há tanto tempo que já nem me lembro onde era a terra da Fátima, mas seria, claro, já ali. Mas lembro-me dos caminhos desde que saímos da carreira até á aldeia e eu, com o meu passo curto e como todos os meninos dessa idade sempre a perguntar se ainda faltava muito e a Fátima, de olhar carinhoso, a responder sempre da mesma forma. É já ali. Preciso agora de falar da D. Eduarda, que era a minha professora primária. Ela tinha dito aos meus pais que não faria mal eu faltar três dias às aulas porque eu era esperto (não, não é convencido pois com cinco anos de idade já lia o jornal, e se tiver pachorra para contar e vocês para lerem, ainda escreverei uma crónica de viagem Cacilhas-Terreiro do Paço, com cinco anos de idade e o Diário de Notícias na mãos). Adiante, a D. Eduarda autorizou aqui o rapaz esperto a ir a um casamento ao Minho. Retomemos o percurso, e as minhas pernas frágeis e bamboleantes, extenuadas de cansaço atingiram finalmente aquela casinha lá no meio da aldeia. A Fátima chegava fresca que nem uma alface e tenho agora a certeza que era de facto já ali, porque quem vai casar no dia seguinte não se pode desgastar muito na véspera.

Mas este costume de retirar importância às distâncias não é um exclusivo português. Está bem que Portugal é pequeno, tudo pode ser considerado próximo, mas a América não. Quando o Mike me deu aquele papelinho, meio telegráfico, “red lights turn right through I5 – direction sacramento – exit walnut creek” eu imaginei poder ser uma informação ao bom estilo alentejano ou então aquela caminhada que fiz com a Fátima lá pela Serra do Gerês. Mas se o Mike disse que era já ali, não havia do que temer. O carro estava reservado no aeroporto, a saída foi fácil e aí estou eu a caminho de Walnut Creek. Mas o semáforo não estava vermelho. Então se red lights turn right porque raio haveria logo no momento em que eu ía a passar o estúpido do sinal estar verde e eu ter seguido em frente e não virado à direita? Lembrei-me então da D. Eduarda que se tivesse tido conhecimento do caso não iria voltar a achar que eu era assim tão esperto. Encontro-me desta forma às voltas, perdido nos arredores de Oakland, sob um lusco-fusco que me trazia à memória os filmes americanos de underground , os grafitti demolidores pintados em amplas e infindáveis filas de barracões de vidros partidos, onde eu imaginava vir a ser assaltado em cada esquina mas ao mesmo tempo muito positivo de pensamento, “calma Vitor tu vais sair daqui o mais depressa possível, se calhar ainda és esperto”. Voltei à casa partida, estive-me nas tintas para a cor dos semáforos, voltei à direita, entrei na tal ai faive, porque uolnotcrique era já ali. E sem ter a Fátima para lhe perguntar se faltava muito, ao fim de hora e meia de auto-estrada cheguei ao destino. Era já ali.

O PreDatado, in Crónicas de Viagem

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Lista de blogs que fazem referência a Crónicas de Viagem III - É já ali:

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Comentários

eu tenho ideia contrária à tua. acho que em Portugal se pensa sempre que as coisas são longe demais. e que em países maiores há mais facilidade em desvalorizar as distâncias.
lembro-me que eu Angola íamos dar uma volta depois do almoço e andávamos 200 km na boa!

Pré,
boa escolha, depois do post anterior, fazeres um sobre a Terra do Car(v)alho - Oakland ;-)

aNa, pois eu por sinal acho que tudo em portugal é já ali;

Jorge foi puro acaso, a escolha da terra do carvalho.

bem, este nível hoje está elevadíssimo!! :DDD

Grande aventura.
Temi pela tua saúde nesses "bafonds" americanos.
Afinal, o rapaz, ainda é esperto ;-)


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