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Crónicas de Viagem IV - A prima

Esta pequena história realça uma certa ingenuidade minha e falta de preparação que os livros escolares estão longe de colmatar. Como não sei se alguém que protagonizou (ou esteve próximo) lerá este texto, não situarei a narração no espaço e no tempo e referir-me-ei apenas ao local, como algures no sul de França, numa noite igual a tantas outras, se para mim não encerrasse alguma revelação. Aconteceu, após uma saída para desentorpecer as pernas e readquirir o equilíbrio (navegar três meses consecutivos faz-nos ter outros pontos de referência e, quando em terra inclinamos a cabeça, inclinamos também o corpo - o cardin ainda não tinha inventado o sistema). A cara do chaufeur que nos transportava da cidade ao cais era de poucos amigos, quando o cumprimentei com toda a educação, incluindo o tão apreciado, pelos franceses, aperto de mão, dando logo ali a entender de que se teria passado algo que me passou despercebido, já que fui um dos últimos a entrar no autocarro. O marinheiro aprontou-se a pedir-me desculpa (uma vez que eu era o único oficial presente no autocarro) e que pretendia levar a prima que vivia na região e se não viam há anos, desde pequeninos, “lembras-te quando brincávamos às escondidas no quintal da avó?”, recordações de infância, forjadas, está claro, que este marinheiro não só falava muito bem francês como era um pintas do caraças e pensava que tinha enganado o motorista do bus tal como me estava a enfiar o gorro a mim. Eu respondi-lhe que isso não era comigo – e efectivamente não era, pois não tinha qualquer poder de decisão sobre quem poderia ou não entrar a bordo – e que ele deveria solicitar autorização ao comandante ou ao imediato quando chegasse ao navio. Soe dizer neste momento que assumi a responsabilidade perante o motorista e, mais importante ainda, é necessário dizer também que ele tinha uma prima lindíssima, que arreava bem, boa como o milho, em suma era uma bomba!
Mais tarde vim a saber que esta era uma prima muito sui generis e muito danada para a brincadeira. Eu entrei de quarto (de serviço, para quem não está familiarizado com a linguagem) à meia-noite, não mais me lembrei da prima, mas a bordo as notícias correm céleres. Quando fui render o meu amigo M, ao contrário de estar chateado por eu ter ido a terra e ele ter ficado a bulir, os seus olhos brilhavam – não sei se brilhavam ou se me fulminavam por eu não ter chegado há mais tempo – e, antes que eu o inquirisse pelo ponto da situação foi ele quem me perguntou de imediato pela puta. Só nesse momento, juro, é que percebi porque é que o marinheiro tinha convidado a “prima” a ir ao navio. É que na verdade a menina no dia seguinte iria de ter de fazer umas compras no Lafayette e os marinheiros iriam de ter de ir fazer outra viagem de alguns meses a olhar uns para os outros. Mas os livros na Escola Náutica, não nos ensinam esta matéria.

O PreDatado, in Crónicas de Viagem

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Comentários

Pré,
eu que nunca fui marinheiro, ouvi dizer que era preferível a ter de andar toda a viagem encostado às paredes. ;-)

Ó prima, ó rica prima ...
Vida de marinheiro é duríssima ;-)

Jorge e se calhar não conheces a história do barril.

Karla, acho que conheço essa rima. Oh prima, oh rica prima... LOL

Pré,
LOL conheço, sim ;-)


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