« e se nos despedíssemos do Inverno com Piazzolla? | Principal | Bird-Flu para Totós »

A lingú maquista

Utilizado durante cerca de trezentos anos como linguagem familiar entre os macaenses, mesmo entre as famílias mais distintas, o patuá era bandeira dos macaenses, que se orgulhavam de ter o que os naturais de Hong Kong não tinham: uma língua própria.

Crê-se que a sua origem esteve na passagem dos portugueses por Malaca (cerca de 1511), onde fruto da união de alguns portugueses com mulheres malaias, nasceu o dialecto português-malaio, conhecido por papia kristang (dialecto cristão), que usa a gramática malaia e na sua maioria vocabulário da língua portuguesa. O mesmo terá sido trazido para Macau, quando os portugueses se fixaram na península em 1557, tendo tomado características próprias.

Ficou conhecido sob várias denominações, como macaista chapado (macaense puro), creolo de Macau, papia cristam di Macau (língua cristã de Macau", dóci língu di Macau (doce língua de Macau), e doci papiaçam (falar doce).

Com o desenvolvimento do ensino em língua portuguesa, o desaparecimento das gerações mais antigas e o êxodo dos macaenses devido aos ataques dos japoneses durante a segunda guerra mundial, o dialecto foi desaparecendo, estando hoje praticamente extinto.

Natural de Macau, José Inocêncio dos Santos Ferreira (Adé) foi sem dúvida o grande responsável pelo relançamento deste dialecto, dedicando grande parte da sua vida à divulgação do dialecto macaense em cada poema, em cada livro, em cada peça de teatro, levando as gerações mais novas a recuperá-lo, demonstrado um interesse muito grande pela preservação deste pedaço da história e do património cultural de Macau e dos macaenses. Adé deixou-nos a 24 de Março de 1993, mas graças a si podemos hoje encontrar o patuá em muitas das suas obras e ouvir o doce linguajar nas peças de teatro que o grupo Doce papiacám de Macau leva à cena.

Aqui vos deixo um poema de José dos Santos Ferreira, um olhar sobre Macau, que fará sorrir quem por aqui passou.


Macau, beléza di passado*

Tera di fé, qui Dios j` abençoá,
Casa qui Têm sosségo, têm pâm;
Fogo sandino pa` vêm lumiá
Alma fichado n` iscuridám.

Tera di chiste co formosura,
Retrato di Sol na Primavera;
Riva, Ceu azul; basso verdura;
Fora, mar chám; dentro sánto tera.

Sã Macau! Nôsso bérço cristám,
Jardim na pê di Mundo semeado ...
Sã Macau, qui têm su coraçam
N` unga dilúvio di amor banhado.

Macau n` unca-sã hoze sômente:
Sã tudo di bom qui na passado
Capacidade di nôsso gente
Criá co trabalo ismerado.

Aqui têm pagode antiquado,
Ali, gréza arto co su sino,
Rua co travessa consertado,
Ornado co casa piquinino.

Prai-Grándi damostrá formosura!
Arto Guia, co farol empido,
Têm Nos` Siora, méga, co doçura,
Ta protezê Su gente quirido.

Subí Pénha contemplá Capela,
Vêm basso buscá Bica Lilau.
Sám Tiago, na Bara, sentinela,
Co espadarám viziá Macau.

Sám Lorénço sã qui vêlo bairo,
Co su antigo Quatel di Môro.
Na Chunambéro nôs panhá nairo,
Na San-Ma-Lou pôde comprá ôro.

Ma-Kok-Mio sai na embocadura,
Lembrá Macau na bérço mulado:
N` unga lado, sã mar di bravura,
N` otrunga, lágri sacrificado.

Arto, basso, grándi, piquinino,
Um-cento bote na mar bojá.
Curto, comprido, tufado, fino,
Sã pêsse qui ilôtro pescá.

Na meo de cidade sai Senado,
Co botica de catá-cutí.
Unga Siminário respetado,
Têm na traz, pa Dios ficá sirvido.

Misericórdia de Dom Melchior
Têm ali co suave humildade.
Tong-Sin-Tóng, co su grándi fervor
Nom-têm fim di fazê caridade.

Más pa diánte, olá Taraféro,
Co botica di catá-cutí.
Vai riva sã ta olá bombéro,
Hospital Kiang-Vu qui china erguí.

Di Basso-Mónte vai La-Chap-Mio,
Lónge di bairo di S-Li-T`au.
Na unga vánda, sã têm san Kio,
Na otrunga, olá Matapau.

Fortaléza Mónte co su peça,
Lembrá nôsso Macau di otrora;
Andá vai diánte, decê travessa,
Gréza Sant` António sai vêm fora.

Decê Sé, sã ta vai Sám Domingo
Rezá pa Mai di Dios co fervôr.
Vai Sant` Agostinho na domingo,
Adorá Siôr Passo na andôr.

Traz di Sám Laz` ro têm Sám Miguel,
Pa alma di justo discansá.
Virá Flora, passa na quatel,
Sã ta intrá na bairo Mong-há.

Têm unga vánda chomá Tap-Siac,
Co unga porçám di casarám.
Vai más pa riva sã Macau-Siac,
Co Ilha Vérde na bocarám.

Na Sám Januário têm Hospital,
Co Sám Francisco na pê di Guia;
Cavá olá Môro-as Ramal,
Virá, sã têm na Dóna Maria.

Di Sám Paulo, dêce vai Jardim
Co nómi di Camões esquivido.
Porta-Cérco sã têm na fim-fim,
Co su portám di fero erguido.

Lugar janota, desdi qui ora,
Aqui China, ali Portugal,
Macau champorado já vêm fora
Unga jardim qui nom-têm igual.

Tera di fé qui têm coraçám,
Têm alma, inchido de beléza,
Sã Macau! Nôsso bérço cristám,
Di Portugal chistosa princésa.

Adé dos Santos Ferreira, em “Macau di tempo antigo”
Dezembro de 1984

Comentários

Noite,
realmente parece um pouco o crioulo cabo-verdiano. Gostei de conhecer este dialecto que, mais uma vez, prova a marca do português no mundo.

De facto o patuá é tipo crioulo. A comunidade portuguesa de Malaca curiosamente também fala um dialeto que é super parecido com o crioulo de Cabo Verde. Afinal o crioulo que ainda hoje se usa não é mais que o português antigo.
Saudações macaenses.

___________________________________
www.lilau.com.sapo.pt - Restaurante Lilau, Cozinha de Macau, Alverca do Ribatejo

Saudações macaenses, directamente de Macau, FireHead! :)


online