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Estratégias para a cultura

Isabel Pires de Lima tem sido criticada por não ter uma estratégia clara para a Cultura. Depois de a ouvir com atenção, fiquei com a impressão de que o problema não será exactamente falta de estratégia, antes excesso de ambição, idealismo e depois, falta de planos de acção.
A Ministra aponta como prioridade a Internacionalização da cultura portuguesa, partindo do princípio de que fazer diplomacia cultural é também fazer diplomacia económica. Não podíamos concordar mais. Na verdade, já era tempo de alguém evidenciar esse aspecto, mas ela não avança com medidas concretas.
A Ministra aponta a Conservação Preventiva como outra prioridade - não só do património edificado, como do livro antigo, por exemplo - ou seja, mudar a arquivística. Não podíamos concordar mais, mas ela não avança com medidas concretas. (se souberes de qualquer coisa, Bilhas, informa-nos)

Outro grande objectivo do actual Ministério da Cultura é o de incluir Portugal na rota das grandes exposições da Europa. Para isso prosseguem as negociações (que já têm um histórico de dez anos) para a fixação da colecção de arte do comendador Joe Berardo em Portugal, que seria integrada num novo Museu de Arte Contemporânea, em Lisboa. Por agora todos parecem optimistas, Joe Berardo incluido! Porque se trata de uma negociação, e não de uma doação, está previsto um "elevado esforço financeiro" por parte do Estado, mas a Ministra não adianta valores! Outra notícia fantástica é a provável celebração do Protocolo Hermitage. O Museu Hermitage é um dos maiores do mundo e faz circular as suas exposições na Europa e EUA. Se este acordo for assinado, a partir de 2010, Portugal passa a ser o terceiro ponto da Europa onde essas exposições poderão ser vistas. Preocupante: o Protocolo está quase a ser assinado mas, diz a Ministra, só agora foi criada uma comissão para orçamentar o projecto!?

Outra grande aposta estratégica da Ministra é a Descentralização. Eu acho que é uma excelente ideia dinamizar a rede de Cineteatros, concertando programação e oferta, optimizando recursos. Porque a cultura "é um veículo de qualificação dos portugueses", é excelente que o Estado aposte nos Serviços Educativos desses organismos e incentive programações para o público escolar. Com o projecto "Território das Artes", o Ministério pretende ainda fazer uma "divulgação local" das artes. São só boas ideias! Mas, a começar pelo caso da nomeação do novo Director do Teatro Nacional, da responsabilidade do poder central, a acabar nas nomeações dos Directores dos Cineteatros pelos Presidentes de Câmaras Municipais, verificamos que o critério a que se obedece não é tanto o da competência mas mais o da cor política. Em Aveiro, pós-autárquicas, o novo executivo camarário (PSD-CDS) "despediu" o recentemente investido Director do Teatro Aveirense... que era Paulo Ribeiro, ex-Director Artístico da Fundação Gulbenkian e, crime maior, simpatizante socialista! Temos uma Câmara sem competência no domínio artístico a demitir um programador cultural qualificado! OK!
A Ministra diz que muda Direcções porque quer mudar correntes. Vê as críticas como naturais "quando se incomoda os interesses instalados". Fico à toa! É que ela é capaz de ter alguma razão! Mas como quebrar o ciclo? Como não instalar novos interesses... que não são os nossos, nem os da Ministra, que, sem pessoal competente, não descentraliza nada nem qualifica público algum!


PS: Que não se conclua destas palavras que responsabilizo o Estado, ou o PS ou o PSD, pelo atraso português em matéria de produções e consumo culturais. Ele há a Escola, pois! E os Media, pois! E o Estado pode regular e legislar melhor, é claro! Mas na verdade, acho que é tempo de nos responsabilizarmos todos por este estado de situação. Quando escolhemos a TVI, ou a novela brasileira, ou o Circo das Celebridades, quando deixamos o Teatro lá da terra às moscas, não sabemos onde fica o Cineclube local, não lemos mais que um ou dois livros por ano, fazemos uma opção em termos do país (e do mundo) que queremos para nós, ou não? :P

Comentários

Lilly...

Antes de mais deixa que te diga... Brilhante! Brilhante a forma como expões alguns dos muitos problemas da cultura em Portugal! Como te posso dar a minha opinião neste cantinho de comentários!? Difícil... mas depois mando vir num futuro post, quem sabe o de amanhã! Quanto ao que me perguntas directamente sobre a conservação preventiva não conheço nenhum plano de acção nem estratégia que não os de sempre!
Mas é melhor eu depois fazer um post sobre a coisa ehehe fica mais fácil!

É verdade... por acaso conheço a pessoa que substituiu o Director do Aveirense e mesmo sendo minha amiga confesso que me desagradam completamente estas saídas que não são baseadas no mérito ou desmérito dos ditos!

Eu prefiro ideias e vontade de fazer, ainda que sem planos, que a apatia total. Ouvi essa mesma entrevista e fiquei com a ideia há ambição, e que sabe exactamente o que quer fazer. É preciso é por mãos à obra, ou corre-se o risco de ficar anos a fio a planear, as comissões a estudar e o tempo a passar.

Nesse caso, Bilhas, sabes que a tua amiga não é programadora cultural, logo não tinha competência para exercer o cargo que lhe foi atribuido. Para que o Aveirense não perdesse subsídeos estatais, para além da directora-geral, tiveram que recrutar Rui Sérgio (programador qualificado pelo IA) que fica como director artístico para a área do teatro (acumulando estas funções a outras, como a direcção adjunta do Teatro da Trindade, em Lisboa), e uma terceira pessoa para a área musical (ou dança, já não sei - que entretanto se demitiu).

Isto é triste! O Paulo Ribeiro esteve 3 meses em funções. Vinha da Gulbenkian, mesmo assim deixou trabalho (bem) feito. Qual foi o problema? Na altura em que foi admitido disse ao jornal local que a aceitação do convite se devia em muito ao Presidente da CMA... que, ninguém imaginava, viria a perder as eleições autárqicas passados dois meses.

Porquê que isto é importante? Porque esta é a regra - aceite por todos - neste país. Meritocracia? Ora!

e vou ficar atenta ao teu post, tenho-te como o expert da casa (e não só) ;)

Karla, vontade só não chega! Mas concordo contigo, antes um bom discurso que o vazio completo.

Lilly,
devo dizer-te que já estive duas vezes com a ministra, por causa do ensino superior (fazia ela parte, pelo PS, da Comissão Parlamentar da Educação, Cultura e Desporto) e fiquei com uma péssima impressão dela, pelo que quando ela virou Ministra da Cultura fiquei imediatamente céptico. E até agora, a minha opinião não mudou, infelizmente. :-(

Por alíneas:
a) Todos temos sempre muito boa vontade quando estamos no governo; intenções e promessas nunca foram comida que faltasse na mesa de qualquer governante, mas eu sou como S. Tomé.
b) Substituir pelas cores políticas é uma das práticas que mais tem descredibilzado as acções governativas; mas em cada 4 anos, por maior que seja a indignação do momento tudo se esquece; de 4 em 4 anos vira o disco e toca o mesmo; são sempre os mesmos a governar.
c) Estou 100% contigo nas considerações feitas no teu post scriptum.


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