Género
Desde um tempo antigo até hoje,
quando um homem segura minha mão,
saltam duas lembranças guarnecendo
a secreta alegria do meu sangue:
a bacia da mulher é mais larga que a do homem,
em função da maternidade.
O Oswaldo Bonitão está pulando o muro de dona Gleides.
A primeira eu tirei de um livro de anatomia,
a segunda, de um cochicho de Maria Vilma.
Oh! por tão pouco incendiava-me?
Eu sou feita de palha,
mulher que os gregos desprezariam?
Eu sou de barro e oca.
Eu sou barroca.
Adélia Prado
Com Licença Poética
Comentários
"Com Licença Poética" deixa-me retribuir Adélia Prado com mais Adélia Prado. E obrigado Lilly por divulgares poesia tão linda.
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Colocado por: Alves Fernandes (Pre para @s amig@s) | março 8, 2006 02:15 PM
Obrigada, Pre, lindo!
Colocado por: Lilly Rose | março 8, 2006 06:48 PM
Lilly e Pré,
excelente, digo o mesmo que disse à Karla e ao Bin, vocês não querem criar um negócio juntos? ;-)
Colocado por: Jorge | março 9, 2006 10:43 AM