O poço
Dizia-se que a água do poço era santa, quem dela bebesse, os seus males curava. Era uma água única. Diziam os filhos da terra que de Verão era fresquinha e que de Inverno até fumegava. O progresso chegou e trouxe consigo a água canalizada, mas o povo não esqueceu o poço. Todos os dias bebiam pelo menos um copo da sua água, quando estavam doentes, bebiam toda a que podiam.
Mas o poço estava ao lado de uma mansão abandona. Um dia, um forasteiro comprou a casa, e com ela o poço, e mudou-se para lá. Era um homem da cidade, que resolvera ir respirar ares menos poluídos.
No primeiro dia que chegou lá, viu algumas pessoas irem buscar água. Mandou-os embora. Eles não obedeceram, que a água do poço era de todos. Perante os seus ares ameaçadores, recuou.
Na semana seguinte, começou a ser erigido um muro à volta da casa e do poço. Numa semana ficou pronto. No dia seguinte, deitaram abaixo parte do muro, junto ao poço, e as pessoas continuaram a poder ir buscar água.
O muro foi reconstruído. A polícia foi chamada para evitar novos problemas. Se de dia, tirando os protestos contra o forasteiro, nada aconteceu, pela calada da noite, parte do muro foi dinamitada, permitindo novamente o acesso ao poço.
Mas o proprietário estava cada vez mais determinado. Voltou a reconstruir o muro, instalou câmaras de vídeo, colocou alarmes, arame farpado, cães de guarda, tudo o que se lembrou. Desta vez, o muro manteve-se de pé.
O povo nomeou então uma comissão para ir falar com o proprietário. Mas ele não cedeu, o poço era seu, aquela propriedade era sua, tinha-a comprado com o suor do seu trabalho.
Depois da comissão, foi o senhor padre. Bem tentou apelar ao seu coração cristão, mas nada feito. Se Deus estivera com ele todo aquele tempo, ajudando-o a acumular riqueza, também esta, com toda a certeza, do lado dele naquele assunto.
Alguns dias depois, já o sol morrera, numa noite calma em que o vento emudecera, estava ele em sua casa, quando os cães começaram a ladrar. Pegou na sua caçadeira, e saiu. Depois de verificar tudo da parte de dentro do muro, dirigiu-se ao portão. Abriu-o e espreitou. Nesse momento, um tiro quebrou o silêncio da noite, e uma bala certeira atingiu-o.
Atordoado, cambaleou, procurou as suas últimas forças, e num último instinto protector, fechou o portão da sua propriedade, antes de cair, morto.
Comentários
Morreu só, mas morreu proprietário!!
Colocado por: Karla | março 30, 2006 11:49 PM
A verdade é que desde pequenino que sempre ouvi dizer: um copo de água não se nega a ninguém.
Colocado por: Alves Fernandes (Pre para @s amig@s) | março 31, 2006 09:18 AM
O forasteiro comprou um poço sem fundo.
Colocado por: maria arvore | março 31, 2006 10:02 AM
Bonito, sim...
E há quem viva mesmo assim!
1 abraço.
Colocado por: GNM | abril 2, 2006 01:36 AM
Nota prévia: estive c'uma gand'a gripe, por isso só agora vim responder... :-(
Karla,
é verdade, terá morrido feliz?
Colocado por: Jorge | abril 3, 2006 10:53 PM
Pré,
esse ditado também é meu. Mas já me negaram, num café, onde deixei de ser cliente.
Colocado por: Jorge | abril 3, 2006 10:55 PM
maria arvore,
ou chegou ao fundo do poço... ;-)
Colocado por: Jorge | abril 3, 2006 11:01 PM
Gonçalo,
obrigado.
Infelizmente, acho que cada vez há mais pessoas a viver assim.
Um abraço.
Colocado por: Jorge | abril 3, 2006 11:05 PM