O português em terras do Oriente
Vim pela primeira vez para Macau há vinte anos. Cedo percebi que o português não era língua corrente nesta terra. Durante muitos anos nunca teve grandes aspirações: contentou-se com o facto de ser língua oficial e de ser utilizada na administração pública, o que por si só não foi suficiente para que fosse acolhido pela população. Nunca foi língua corrente, nunca foi ensinado nas escolas chinesas, nunca foi amado.
Ao contrário do inglês na vizinha ex-colónia britânica, que quase toda a gente conhece, são raros os chineses de Macau que sabem o português. E tanto assim é, que automaticamente partimos do princípio de que as pessoas seguramente não falam. Mas por vezes temos surpresas.
Num destes dias cinzentos e chuvosos, numa das muitas procuras do chapéu para o meu cowboy, procurei uma loja que conhecia, que vendia artigos em verga e palhinha. Sem grandes esperanças, mas não querendo pôr à partida de lado uma - ainda que remota - possibilidade de encontrar um chapéu, pus-me a caminho por entre o trânsito infernal já habitual nos últimos tempos, agravado pela chuva intensa que se fazia sentir. Encontrado um lugar próximo para o carro, lá fomos calcorreando aquela rua conhecida, à procura da dita loja. Fizémos apenas aquela parte da rua, já que eu sabia que a loja ficava por ali. "Não, não me digas que fechou..." - penso, embora não seja de espantar nos dias de hoje, em que todos os dias assistimos ao fecho de lojas do comércio tradicional, para serem substituidas por todo o tipo de franshisings pouco interessantes. Andámos mais uma vez para cá e para lá e nada. Entrei numa loja que me parecia estar no exacto local da outra. Podia ser que tivessem apenas feito algumas alterações (embora me custasse a crêr...). Entrámos, olhámos em volta e percebi que era um local onde se faziam massagens. Nada de vergas ou palhinhas. Olhei para uma senhora, sorri com ar comprometido, passei a mão na cabeça que pedia um chapéu e disse "anda filho, já não é aqui", sem nada perguntar a ninguém, claro, para quê? Primeiro que me conseguisse fazer entender... Foi então que a senhora me surpreendeu:
- Não vai fazer massagem?
- Fala português...
- Sim...
- Não, massagem não vou fazer, mas... procuro a loja que estava aqui antigamente... uma de mobílias... sabe alguma coisa...?
- Sim, tenho aqui um cartão. Mudou para a Rua de S. Paulo"
Na Rua de S. Paulo havia loja e não havia chapéu, mas eu tinha ganho uma história para contar. Apesar de muito pouco, ainda há quem fale a minha língua!
Comentários
e que história tão bonita! é verdade que mexe qualquer coisa por dentro quando ouvimos a nossa língua fora deste cantinho!
bj
Colocado por: Lilly Rose | março 5, 2006 03:45 PM
A história é bonita, e o motivo que lhe deu origem interessante. Mas permites-me uma brincadeira? Era uma casa de massagens e não havia vergas? Estes chineses já não são como antigamente... digo eu.
Colocado por: Alves Fernandes (Pre para @s amig@s) | março 5, 2006 07:50 PM
Noite,
tiveste sorte, aqui as casas de massagem nem sempre falam português... ;-)
Colocado por: Jorge | março 5, 2006 08:59 PM
É verdade, Lilly. Principalmente por estas bandas, em que as línguas são tão diferentes...
Pré: :P era uma casa de massagens medicinais ;) (também por cá há muitas das outras, sim)
Jorge: como te fazes entender, então? :D
Colocado por: Noite | março 5, 2006 11:41 PM