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O meu 25 de Abril

Foi longe, bastante longe, em Luanda, onde nasci… Tinha 17 meses.

Por isso, à partida, o 25 de Abril de 1974 pouco me diz. É claro que não é assim. Mas antes de dizer qual o significado que esta data tem para mim, é preciso falar um pouco do que foi o pós-25 de Abril no meu caso particular.

Em Outubro do mesmo ano, voltámos para Portugal, para a aldeia da minha mãe, S. Lourenço, no concelho de Chaves, de bolsos quase vazios. Muitos dos que saíram antes trouxeram os bolsos recheados. No nosso caso, não.

Mas, tal como acontece muitas vezes, temos a fama, não o proveito. Quando regressámos, éramos retornados, o que, para muitos, era sinónimo de ladrões. Foram tempos complicados que eu, por ainda ser muito novo, pouco senti, mas que deixaram marcas na minha família.

Os tempos foram difíceis. O meu pai lá conseguiu começar a trabalhar num restaurante, a minha mãe fazia roupa para criança para uma casa da especialidade. Nunca me lembro de ter faltado comida na mesa. A roupa e os sapatos usavam-se até romperem definitivamente os remendos, já os dedos dos pés espreitavam o frio do Inverno.

Por sorte, a minha irmã e eu éramos bons alunos, nunca reprovando um ano até ao fim da licenciatura. Isto apesar de, a minha irmã (5 anos mais velha) primeiro, ajudando a minha mãe na costura, e eu depois, a partir dos 13 anos, no restaurante que o meu pai tinha conseguido abrir, termos trabalhado ao mesmo tempo que estudávamos.

Chegado aqui, porque é que eu, no meio disto tudo, sou a favor do 25 de Abril? Afinal, a resposta mais simples seria deitar as culpas à revolução, pois tinha sido ela a causadora de todas as nossas dificuldades. Essa é sempre a resposta mais simples, assim como a xenofobia e o racismo são para a falta de emprego. Além disso, seria sempre uma falácia, pois a guerra em Angola já era insustentável.

A razão para eu ser a favor da revolução é simples. Acredito que, se não tivesse havido a revolução, seria impossível para famílias como a minha terem conseguido, do nada, chegar onde nós chegámos. A liberdade, independentemente de tudo o que se seguiu de bom e de mau, é que nos permite sermos capazes de enfrentar a vida sem medo, sermos capazes de sonhar e concretizar um futuro melhor.

Também por isso, tenho pena que, hoje em dia, haja quem já tenha esquecido o significado da revolução. Quando vejo os últimos governos colocarem os números à frente das pessoas, a sede do poder à frente do dever de servir os cidadãos, o marketing à frente da verdade, penso que talvez estejamos novamente a retroceder. Talvez esteja na hora de uma nova revolução…

Comentários

Oh Jorge,
:)))) quando é começam as reuniões de preparação que eu vou?...

Oh Jorge,
:)))) quando é começam as reuniões de preparação que eu vou?...

maria.arvore,
vamos a isso, há que começar quanto antes. :-)

Está na hora da revolução pela educação, pela instrução e pela cultura. Para mim, o maior déficit da nossa democracia.

Ja nao tenho idade para reuniões, mas gostaria de saber que as vão fazer.
Boa narrativa

Karla,
é um pouco por aí.
Os primeiros alvos deveriam ser as crianças, os jovens e, principalmente, os políticos.

Anonymous,
é uma questão de haver querer e força.
Obrigado.


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