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José Maria Pedroto e Tribos

pedroto.jpg

Bom, não é muito comum eu fazer um post sobre futebol. Mas, o amigo Pré num post mais abaixo, escreveu uma pequena frase que sinceramente me incomodou. O nome Pedroto para mim significa algo incendiário.

Não propriamente pela táctica futebolística, aliás, até mais pelas palavras e acções fora das quatro linhas do campo.
Há uns anos vi umas entrevistas do Pedroto, vi e ouvi um homem simples a falar a dizer o que pensava sobre o mundo do futebol, sobre o centralismo da capital que existiu. Esse centralismo era futebolístico, e inerentemente político, o Pedroto era de facto incendiário quando se referia a esse assunto. Para além disso semeou bases para o futuro dos que se lhe seguiram, nomeadamente no Futebol Clube do Porto. Bases essas que são reconhecidas precisamente por esses que se lhe seguiram, falo nomeadamente do Artur Jorge.

O Pedroto nasceu em 1928, mais concretamente a 21 de Outubro em Lamego.

Jogou nos infantis do FC Porto, e no Leixões já em idade de júnior. Pedroto compensava a falta de físico com um enorme talento. O serviço militar levou-o ao Lusitano de VRSA, onde começou a despertar o interesse dos grandes.

Em 1950 tranfere-se para o Belenenses. Pedroto cedo se afirmou como um dos melhores médios do futebol Português. Em 1951 estreia-se pela selecção nacional, em Paris. Em 1952 a sua transferência para o FC Porto envolveu verbas recorde para a altura. O FC Porto estava a construir uma grande equipa que viria finalmente a quebrar um jejum de muitos anos...Em 1956, comandada por Dorival Yustrich, a equipa do FC Porto conquista o Campeonato e a Taça de Portugal. Pedroto foi uma das principais figuras da equipa.

Em 1959, Pedroto é novamente campeão nacional, apesar das artimanhas de um tal de Calabote... Em 1960, Pedroto torna-se o primeiro treinador Português com curso superior. Foi um treinador com excelentes capacidades técnicas associadas a um discurso agressivo, na onda Mourinho numa época diferente.

Enquanto treinador, Continuou a evidenciar-se nos "estudos", obtendo uma brilhante classificação num curso de treinadores efectuado em França. Estes resultados, aliados ao bom trabalho nas camadas jovens do FC Porto, levaram-no ao posto de treinador da selecção nacional de juniores. Com Pedroto ao "leme", Portugal conquista o seu primeiro título Europeu!

Pedroto abandona o futebol jovem do FC Porto para ir treinar a Académica. Forjou grandes talentos nessa época, sendo reconhecido por todos a qualidade do futebol apresentado pela equipa de Coimbra. Depois treinou o Leixões, onde foi vitíma da única chicotada psicológica da sua carreira, traído pela falta de condições oferecidas pelo clube. Treinou depois o Varzim, que estava no seu 2º ano na primeira divisão... o Varzim foi a sensação desse campeonato.

Em 1966 realizou um sonho: tornar-se treinador principal do FC Porto, fica até 1969 e vence uma Taça de Portugal. Depois ruma até Setúbal, altura em que o Vitória obtém alguns dos melhores resultados da sua história, sendo uma vez vice-campeão, uma vez finalista da Taça, e obtendo excelentes prestações nas competições Europeias.

Em 1974, mudou-se para o Boavista...em dois anos obtem um excelente 2º lugar no campeonato e vence 2 Taças de Portugal.

Volta às Antas para vencer dois Campeonatos e uma Taça de Portugal.

Falha o «tri» e sai na confusão do "verão quente". Passa a treinar o Vitória de Guimarães, onde esteve 2 épocas, obtendo um 4º e um 5º lugar. Com ele esteve Artur Jorge.

Pinto da Costa, já Presidente do Futebol Clube do Porto, trouxe Pedroto para as Antas. Nesse período ainda venceu uma Taça de Portugal e foi finalista da Taça das Taças. Pinto da Costa e Pedroto criaram as bases para a série de grandes êxitos que se seguiram e que culminaram com a vitória na Taça dos Campeões Europeus. Ao "leme" estava o seu discípulo Artur Jorge, o único treinador Português Campeão Europeu de clubes.

Palmarés:
Como jogador:
- 2 Campeonatos Nacionais
- 1 Taça de Portugal
- 17 internacionalizações

Como treinador:
- 2 Campeonatos Nacionais
- 5 Taças de Portugal
- 4 vezes finalista da Taça de Portugal.
- Seleccionador nacional (17 jogos, 03/04/74-30/03/77).

Algumas frases do Pedroto:


"O verdadeiro calcanhar de Aquiles do nosso futebol reside no simples facto de quase todos pensarmos que, quando saímos dos estádios, já não somos profissionais de futebol".

"Estamos na mediania no conceito europeu. relativamente ao futebol de alta competição, temos meia dúzia de jogadores com grande classe".


"Não tenho dúvidas de qualquer espécie de que ao Artur Jorge não faltará onde trabalhar e que, em qualquer parte, triunfará. Mas também acredito que vai ser no FC Porto que ele acabará por ser revelar como um homem predestinado para a direcção e comando de equipas de futebol"


Só uma curiosidade, li há dias que, em dia 12 de Janeiro de 1908, no Campo da Rainha, o Futebol Clube do Porto defrontou o Real Fortuna de Vigo, actual Celta de Vigo, naquele que foi o primeiro jogo de um clube português com um clube estrangeiro. Li também, que se desconhece o resultado deste jogo. Bilhas, tu que és de história podias investigar isto pá!

Segundo dizem, foi também o autor desta frase: "É tempo de acabar com a centralização de todos os poderes da capital."

Este discurso verdadeiramente enquadrado no tempo faz sentido para mim, essa centralização existiu e ainda de certa forma existe, embora com outras nuances. Isto não é nenhum discurso regionalista para mim, se eu fosse regionalista talvez fosse saariano :)
Mas, reconheço que existam pessoas com discursos regionalistas, nao significa necessariamente que isso seja mau. Se olharmos para os regionalistas como grupos tribais ou algo do género.

Por falar em tribos, elas surgem a partir das comunidades primitivas, pela junção de dois ou mais clãs unidos por ligações exogâmicas. A reunião de vários clãs e a formação alargada da família, após três ou quatro gerações, deu lugar a uma nova organização social mais avançada, caracterizada por uma determinada unidade cultural.

A sociedade tribal acompanha a transição das comunidades de caçadores e recolectores para as comunidades agrícolas. Com o modo de produção alimentar mantém-se na tribo a inexistência de classes, exploração dos homens ou a divisão em governantes e governados. Os seus membros trabalham em conjunto, continua a existir a propriedade comunitária dos meios de produção e, em particular, da terra. Não se altera a partilha dos bens de consumo e os bens excedentes são conservados pela colectividade. A tribo dá vida a uma forma de propriedade social, tribal, que envolve o território de residência, de caça, de pastagem, de cultivo ou outras terras comuns.

Surgem regras de conduta do homem que se assumem como usos e costumes com características tradicionais. Não se verifica ainda a existência duma categoria especial de homens que se destaquem para governar sistemática e permanentemente, não sendo visíveis sinais de existência do Estado. Os membros adultos resolvem em conjunto as questões de importância vital.

A comunidade tribal acompanhou o processo de funcionamento e desenvolvimento do novo modo de produção. Esta forma existiu em todos os povos na fase de transição da comunidade primitiva ao longo de vários milénios. Permitiu o desenvolvimento da actividade económica e contribuiu para a coesão dos seres humanos. Criaram-se condições favoráveis à conservação e acumulação de experiências produtivas, ao germinar da cultura e aperfeiçoamento da linguagem.

Ao ultrapassar os limites da consanguinidade desenvolveu-se o crescimento numérico, a deslocação dos indivíduos dum para outro lado e, consequentemente o aparecimento de relações económicas, como a troca directa, e a ocorrência de desenvolvimentos originários de outras comunidades.

Entretanto surgem diferenciações entre as tribos. Umas adoptaram uma actividade produtiva localizada que permitiu e exigiu a sedentarização. Outras preferiram a vida nómada, vivendo essencialmente da caça e da criação de gado. Estes diferentes rumos, resultantes de condições ambientais, exercerem uma grande influência no estabelecimento de meios de troca, sobretudo de alimentos vegetais e produtos de origem artesanal, como a cerâmica.

O aparecimento posterior de federações de tribos indicia o início duma mudança na estrutura da comunidade tribal. Aos poucos foram aparecendo unidades políticas maiores que uniam várias aldeias sob uma autoridade comum. Trata-se, porém, duma organização social que ainda não conhece o Estado.

A estrutura das tribos é idêntica em todos os povos, seja entre os ameríndios, as tribos africanas, ou entre os povos germânicos, eslavos e mongóis do passado. À estrutura dos povos pescadores, caçadores, agricultores ou pastores, sedentários ou nómadas, corresponde invariavelmente a estrutura tribal.


Isto para dizer que por vezes nos esquecemos da nossa primitividade, não dos distanciamos das coisas o suficiente para as observarmos e sentirmos de outras perspectivas. O Pedroto foi um tipo incendiário, claro que foi. Agitou, e as pessoas que agitam são um bocado incómodas, seja no futebol ou noutra área qualquer da sociedade.

Deixo-vos dois links um sobre um artigo do José Saraíva, que me parece adequado para rematar este post em que falo do Pedroto e outro sobre Túpac Amaru porque falei também em tribos.


Era isto que eu tinha a dizer, para já.

Bin

Comentários

Bin,
qualquer dia, acho que vou falar mal de África, para te arrancar um post destes. :-)
Para mim, o problema do Pedroto é o mesmo do Mourinho e, já agora, do Artur Jorge: terem tido exito no Porto em vez do Benfica. :-(

Jorge... nem mais tiraste-me as palavras da boca :) ou dos dedos...

Bin... vou ver se consigo procurar essa informação do primeiro jogo de futebol internacional com uma equipa portuguesa! Mas olha que eu aponto para outro clube... mas não digo nada!

Bolas!!!
Imagina, se ligasses ao futebol :))

Caro Bin,
Penso que interpretaste incorrectamente as minhas palavras no post que editei. Na verdade era um contraponto entre a mania, cá da terra, de pôr nos píncaros os portugueses do futebol contra os estrangeiros. Em situações semelhantes, o provincianismo nem consegue ser disfarçado. Eu dei alguns exemplos que não vou repetir. Se te lembrares a campanha pró-João Pinto após as degradantes cenas no Mundial da Coreia/Japão ou o movimento que se levantou em favor de Sá Pinto aquando da vil agressão a Artur Jorge, então Seleccionador Nacional, e as comparares com o que foi escrito e dito sobre George Weah quando teve aquela atitude reprovável contra o Jorge Costa, talvez entendas melhor o que eu quis dizer. Poderia aqui continuar com uma boa dezena destes exemplos, mas sobre isto não vale a pena pôr mais na carta.
Agora vamos a José Maria Pedroto: Quero que fique bem claro que nada me move pessoalmente contra José Maria Pedroto enquanto homem ou personagem regional. O que me fez referir Pedroto foi, no contexto, a idolatria ao “mestre” versus os ataques a estrangeiros que por cá passaram, ou estão, com curricula invejáveis e incomparavelmente mais ricos do que José Maria Pedroto. E no caso concreto falava de Luís Felipe Scolari que no pouco tempo que tem de seleccionador nacional tem mais vitórias que qualquer outro seleccionador que por cá tenha passado. É verdade que Manuel da Luz Afonso (mas por favor deixa-me também dar mérito a Otto Glória, outro estrangeiro) levou Portugal ao 3º lugar de um mundial. Mas quantos anos teremos de andar a falar nisto se até a “super potência” futebolística Coreia já obteve um 3º lugar? O que eu acho inadmissível é que Scolari seja arrasado por todos os jornais como se fosse o mau da fita. Penso que este era o objectivo do meu post, de não achar apenas que o que é nacional é que é bom, tal como já tenho escrito em outras ocasiões o inverso, sem com isso deixar de ser coerente, porque o faço sempre contextualizado.
Mas debrucemo-nos sobre Pedroto, um pouco mais. Agora sobre a biografia que colocaste neste post. Mestre Pedroto (como parece que também gostas de lhe chamar), pode ter sido o primeiro licenciado na área do desporto. Não merece é mais honras por isso do que a primeira mulher portuguesa licenciada em medicina, Elisa Augusta da Conceição de Andrade ou que Carolina Michaelis de Vasconcelos a primeira mulher nomeada para uma cátedra universitária. Portanto de primeiros em alguma coisa estamos falados. Alguém tem de ser primeiro em alguma coisa e se não fosse Bartolomeu Dias outro seria a dobrar o cabo Bojador. Não é um feito individual desprezível, mas não podemos também escamotear a relatividade das coisas.
Quanto ao curricullum enquanto desportista ou treinador, mesmo em Portugal não deixando de ser grande, tem pares. E alguns o superam. Já que te deste ao trabalho de investigar o CV de Pedroto, sugiro-te como TPC o do Artur Jorge, o do Toni, o do Manuel José, o de Carlos Queiroz ou até o de Augusto Inácio.
Finalmente o teu argumento da luta contra o centralismo. Não foi uma luta política, nem uma luta pela regionalização, nem uma luta pela descentralização do poder em geral. Foi uma luta pelos poderes do futebol. Era esse o seu contexto e tem seguidores. Os que gritam, quando se trata de lutas, apaixonadas é verdade, pela hegemonia futebolística, que “só querem ver Lisboa a arder” são os mesmos que homenageiam e condecoram com estatuetas do FCP o Presidente da República e os primeiros-ministros. E a esses não só nunca se ouviu gritar a Presidência da República de Belém para a Cedofeita já!, nem frases do tipo, “nem Terreiro do Paço nem S. Bento, o Governo na Torre das Antas cabia todo cá dentro!” , mas antes pelo contrário, quando se lhes surge a oportunidade não hesitam em integrar o “Governo de Lisboa”. Sobre provincianismo estamos falados! E viva o estádio de Oeiras!

São tão lindos e tão cultos, os meus meninos :-))
aNa,
não te estou a ver calada, neste tema ;-)

eles são umas verdadeiras enciclopédias!!! :)))
eu é mais coisas práticas ;-)

Pré,
não te chateies, a verdade é que estamos cada vez mais "british". Lembras-te a discussão que foi a contratação do Eriksson, e agora a tentativa de contratação do Scolari? Daqui a nada estamos a beber chá às 5 da tarde. Para já, há quem já ande pelo lado errado na auto-estrada. ;-)

Pré,
lembras-te da questão da existência de dois jogadores com o nome Carlos Manuel no Benfica na década de 80? Cá está a prova, num blog que te recomendo: http://memorias-encarnadas.blogspot.com/2005/10/memrias-fotogrficas.html

Traido pela falta de condições do clube? O caralho, caso não saiba ele foi corrido porque só meteu água, e as condições estavam ao nivel de qualquer equipa portuguesa... o Leixões teve nessa altura uma das melhores escolas do mundo!!! OS BÉBÈS... treinados com métodos técnico-tácticos que ainda hoje perduram no mundo do futebol!!!

Não quero de forma alguma desvirtuar a discussão, mas o primeiro homem a passar o cabo Bojador foi Gil Eanes. Bartolomeu Dias foi o primeiro a passar o Cabo da Boa Esperança.
Quanto ao resto...cumprimentos de um ex-nãoregionalista que se tornou num regionalista convicto após ter ido viver para Lisboa...

Vá lá, comenta à vontade:



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