« Bom fim de semana | Principal | Zambujeira do mar »

A cave do João Nuno

Diz-se numa surdina muito audível que era um dos melhores sítios de Espinho. Ficava na rua 16. Vocês já sabem que Espinho é uma cidade muito organizada, não sabem? E que a malta trata (ou tratava porque agora há algumas excepções) as ruas por números. Simplificamos a vida aos tipos dos correios e devemos ter sido a única cidade do país a não ter que mudar o nome da Avenida Salazar para Avenida 25 de Abril. Mas dizia... ficava na rua 16 e tinha umas quantas salas que, ao longo dos tempos, tiveram diferentes utilizações. Foi escritório do Avô João, armazém e escritório da empresa de distribuição de vinhos do Pai e finalmente, quando chegados à "pumberdade", foi atribuída aos manos Bilhas para usufruto pleno. A intenção do pai e mãe Bilhas era óbvia: podiam ter os meninos pertinho das asas.

Já vos tinha falado da cave do João Nuno num post anterior, mas tinha sido apenas uma referência e a cave (que teve vários nomes ao longo dos tempos, como por exemplo, Buraco, Bizz, Cave e outros que tais) merece bem mais do que uma referência. Afinal foi dos sítios onde passei alguns dos melhores tempos da minha juventude.

Deixem que vos descreva um pouco aquele lugar. Tinha duas salas principais e utilizadas em exclusivo por nós. Na parte de trás da cave tinha ainda uma biblioteca (com os livros do avô), uma sala de arrumos sempre dessarumada e a lavandaria (território exclusivo da mãe Bilhas e onde apenas era permitido guardar as bicicletas). Nas duas salas principais e depois de uma intervenção de fundo organizada por todos os amigos que usufruiam do espaço a coisa funcionava da seguinte forma:
- na primeira sala existia uma cabine de DJ construída em madeira (uma espécie de Tabopan que devemos ter gamado em qualquer lado) onde se encontrava a aparelhagem e todos os controlos de luz e som. Escusado será dizer que tinhamos bola de cristal, focos, "strooble" (acho que é assim que se escreve... é aquela luz branca que pisca como o raio) e, quais cereja em cima do bolo, ainda tinhamos uma luz negra. Para criar ambiente, como diziam alguns. Esta sala era utilizada nos dias de festa como pista de dança.
- na segunda sala tínhamos um bar, construído em uma semana com tijolo burro gamado de uma obra qualquer com o auxílio involuntário da mãe do Panchas no transporte dos tijolos para a cave. Penso que lhe dissemos que tinham sido oferecidos! (D. Rosa espero que se ler isto não se chateie muito connosco.) Para além do bar tinhamos também umas mesas, uns sofás, bebidas, máquina de café, televisão, cartas, um jogo de dardos, enfim... uma quantidade de coisas que nos permitiam passar tempos sem fim lá dentro. Era a sala mais utilizada e a mais confortável.

Na cave fizeram-se festas memoráveis. Passagens de ano, carnavais, festas por este motivo ou por aquele, festas nas catraias ou elas nos catraios, sei lá bem. Foram mesmo muitas. Recordo algumas com particular saudade. Uma passagem de ano em que chegaram umas 50 pessoas antes dez minutos da meia-noite e que passados 15 minutos da meia-noite, depois de (literalmente) destruída a cave, a mãe Bilhas fez o favor de colocar toda a gente de lá para fora e um aniversário aqui do vosso amigo que acabou com uma borracheira daquelas são duas das festas que me fazem sentir falta daquele sítio. Depois da fase das festas a cave passou a ser utilizada para os serões entre amigos e/ou família. Era uma fase mais sossegada em que tínhamos a Spinus para as noites mais "pump da jam"!

Nessa altura passávamos as noites com a cave cheia de amigos(as) na conversa, a beber uns canecos, alguns a fumar umas ganzas (com cuidado para a mãe Bilhas não surpreender ninguém), a ouvir música, a tocar guitarra e a cantar (alguns apenas porque os outros desafinavam demais), a namorar, a jogar King, Poker (de cartas e de dados) e Canasta até que começavamos a ouvir as pancadas de Moliére provenientes do quarto da mãe Bilhas. Era o sinal que a noite tinha que acabar para darmos descanso à família.

Hoje já não é do João Nuno a cave. Tivemos que a deixar, porque a vida é feita de mudanças. No entanto custa passar por lá. Custou imenso passar por lá no funeral do Pedro. Um amigo que tanta vida trazia com a sua guitarra e música quando se juntava a nós na cave do João Nuno.

Comentários

Bilhas,
esses lugares não desaparecem da nossa memória, e as pessoas que por lá passaram continuam presentes na nossa memória.
Bonito texto. :-)

Há coisas que vivem dentro de nós.

Jorge... tens razão... nunca desaparecem mesmo! E principalmente as pessoas que por lá passaram, porque foram elas que tornaram aquele lugar especial! Thanks!

Mystics... é verdade! É a vantagem de termos memória!

Vá lá, comenta à vontade:



online