Avenidas de Merda
O Ivar Corceiro é um amigo que viu ser publicado há pouco tempo o seu primeiro livro, ESTE. Sim, chama-se Numa Avenida de Merda. E depois desafiou-nos a todos a escrever sobre a nossa avenida de merda. Eu vou mostrar-vos a minha. Vocês podem e devem aceitar o mesmo desafio.
Não foi tanto o facto de ele estar completamente bêbado, mesmo sóbrio teria aquele ar miserável e rasgado. Mas arrotou quando estava já bem próximo de mim e disse foda-se de desprezo. E depois começou a cuspir repetidamente sois todos uns cabrões sois todos uns cabrões. É claro que me afastei e acho que ainda me lembro daquela impressão de sentir o nariz torcer. Incómodo. Que grande incómodo. Isto dantes não era assim.
E logo à frente, novamente essa vontade de parar de inalar e de cegar. Aquilo é uma ferida com gangrena ou outra merda qualquer. A velha está sentada e geme um dai-me qualquer coisinha. Num relance os olhares cruzam-se. Sente dor, exala dor. Perturba-me essa dor dos olhos. Azuis. Ela foi bonita. Está um calor insuportável. Bebia qualquer coisa.
Atravesso a praça até à banca das gasosas. E então vem outra. Aquela ali é a minha filha, tem o ciclo mas não quer trabalhar. E insiste, persegue-me. Lá em casa não há nada, acabou o gás. Páro e fixo a mulher. Tome lá, mas deixe-me em paz. A filha está sentada num banco, vira e revira um pacote amarrotado de SG Gigante e farta-se de rir sozinha.
- Ela é doente? - Doente sou eu, ela é uma desgraçada, quando rouba é pra cigarros. A doida começa a baloiçar-se e ri mais alto. Fujo dali com a garrafa de água na mão. Novamente na Avenida, tento acender um cigarro. É o saco, é a garrafa que, merda, já está vazia, e este calor. Vou fumar para quê? Mas acendo o cigarro.
Depois da praça a Avenida era bonita, lembro-me de acácias amarelas, do Mercado Municipal, de cores garridas contrastando com gente vagarosa. É quando reencontro o Mercado que percebo que a cidade da minha Avenida morreu. As paredes cinzentas estão lá mas deste lado da rua quase oiço um eco. Do interior do edifício vazio o breu espreita, se estendesse as mãos conseguiria tocar-lhe. Um silêncio enorme numa Avenida agora movimentada, buzinada, atropelada.
Pego na máquina, que se lixe, sou turista. Vou fixar a decadência. E então reparo neles. Velhos secadores de cabelo à varanda. A minha Avenida de Merda tem um oásis surreal. E, esquecendo a sujidade no solo, consigo imaginá-las, mulheres bonitas, sorridentes, a fazer a mise enquanto bronzeiam as pernas pequenas, cruzadas, fechadas.
Desperto com um miúdo que chora nos braços da mãe, mas ela continua a andar rapidinho, enquanto o baloiça para cima e para baixo.

Comentários
Lilly,
excelente o texto e tambéma a foto, gosto do pormenor dos secadores na varanda. Parabéns ao Ivar Corceiro (ainda me recordo do poema Palestina). Se for à minha avenida, talvez escreva qualquer coisa.
Colocado por: Jorge | junho 29, 2006 04:49 PM
Que texto fantástico.
Não conhecesse eu a tua rua e, diria que moravas num país do 3º ou 4º mundo. No meio de prédios bonitos, praças e calçadas, a miséria urbana.
Colocado por: Karla | junho 30, 2006 10:50 AM
E nós, que estamos a meio de uma avenida, começamos a ficar encandeados com a velhice à espreita. É angustiante a visão dos teus olhos sem filtro, Lilly. E verdadeira.
Colocado por: Elipse | junho 30, 2006 08:42 PM
é valido o texto que escrevemos anteriormente sobre a avenida,lily?
Colocado por: j.p. | julho 4, 2006 11:57 PM