escritos à toa
na altura, vestia as mesmas calças todos os dias. já coçadas na zona dos bolsos, pelo carrego das moedas.
(telefonava-lhe sempre depois do almoço.)
sabia-lhe a uma espécie de cuidar. a ingenuidade não lhe permitia ver para além do óbvio. a autenticidade também não.
o mais difícil, quando se é transparente, é ocultar as segundas vidas que, em momentos de carência, se tentam manter. é a voz que deixa de ser um riacho de águas límpidas, e se transforma em poço. não corre. estagna. acumula.
os bolsos acabavam por se romper. e as moedas, lá colocadas, deslizavam por dentro das calças até ao chão.
(achava-lhe graça aquele ar descuidado, embora perfeitamente limpo. a seu tempo talvez conseguisse modificar alguma coisa, aqui e ali. e depois, mais além e acolá. é a tendência natural. tem-se um pouco e quer-se mais. como um brinquedo que se manuseia a belo prazer.)
o hábito mantém-se. já não com a mesma frequência, mas usar os bolsos das calças como carteira, ainda dá muito jeito.
a ingenuidade, essa, não será bem igual, mas anda lá perto - ainda gosta de dar pontapés nas pedras!
Comentários
adorei... nem sei bem o que dizer, mas está demais. Parabéns!
Colocado por: Carmo | julho 25, 2006 03:44 PM
O Carmo já disse tudo, sem dizer nada. É isso mesmo, é para ler e saborear.
Colocado por: karla | julho 25, 2006 03:53 PM
Carmo
também nem sei que te responder, para além de te agradecer. pus-me a escrever e saiu isto :)
karla
saborear com uma bebida fresca ao lado, talvez saiba melhor ;)
Colocado por: aNa | julho 25, 2006 04:40 PM
aNa,
excelente texto, tão fluído que parece ter sido escrito a dançar.
Quanto ao conteúdo, nada como usar os bolsos para guardar as moedas. E os buracos nos bolsos então, são uma lufada de ar fresco, literalmente. ;-)
Colocado por: Jorge | julho 25, 2006 10:13 PM
:)
Colocado por: aNa | julho 26, 2006 12:17 PM