Está calor, muito calor. Apetece-me abrir a janela, mas tenho receio que o mundo lá fora me sugue e não me deixe regressar. Tenho sempre aquele misto de vontade de sair e medo de não conseguir sobreviver, tal passarinho fora da gaiola.
A minha janela é uma linha de fronteira entre o mundo exterior e o meu próprio mundo interior. Quando olho lá para fora esqueço-me de quem sou, saio de mim e vagueio pelo infinito. Quando me viro para o lado de dentro, vejo-te a ti, a nós, por todos os cantos da casa.
Reparo numa mancha na parede, e vejo-nos a fazer amor contra essa parede, num daqueles dias tão quentes em que parecíamos derreter e fundir-nos nela. Vejo a cama desfeita e imagino-nos deitados nela, suados e pegajosos, após uma noite de amor. Umas vezes eu acordava e ficava a ver-te, até abrires os olhos. Outras vezes, acordava nos teus olhos brilhantes, servidos com um sorriso refrescante.
No quarto, na sala, na cozinha, na banheira, em todos os sítios onde nos amámos, eu vejo-te, desejo-te, sinto a tua falta, mas também a tua presença. Sim, está calor, mas a janela permanece fechada. Não quero atravessar a linha da fronteira. Ainda não.