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Por que somos portugueses?


Paula Rego

Por que somos portugueses?

Pode ser difícil de definir, mas bastou-me entrar num avião, pela primeira vez sem bilhete de volta, apenas ida, para perceber como sou portuguesa. Juro-vos que "vestia" de luto e esperava que todos partilhassem comigo essa estranha dor. Depois as ondas devolveram-me mais cedo do que esperava à Pátria. Mas desses anos vividos à distância ficaram muitas certezas. de que sou muito mais portuguesa do que imaginava, e de que é um desespero ser portuguesa. Vamos por partes.
Convém explicar-vos que nasci em Angola mas que vivi apenas os primeiros 6 anos da minha vida nesse país. No entanto, à força de me ouvir dizer Dundo-Chitato-Portugália, uma espécie de música exótica inscrita no local de nascimento do meu primeiro passaporte, essa origem acabou por me invadir também. Caetano canta a propósito de outras essências o que eu sinto por Angola e África, é qualquer coisa que por dentro mexe. Quando me vêem dançar, os amigos dizem pois, que ela é africana. e eu acredito. acredito que os ritmos que ouvi nessa primeira infância estejam cá dentro. como outras coisas que cá dentro mexem quando agora adulta viajo até esse Continente.
Mas lá sou portuguesa ou já sou mais portuguesa que angolana. Faltam-me códigos, linguajares, mitos, vivências e a colagem da História de um país à minha própria história. Essa colagem aconteceu aqui. no Puto. por força da idade e porque memória e consciência amadureceram aqui.
Mas voltemos a essa viagem de avião que me levava para outros destinos. para um país com maior grau de desenvolvimento (outro conceito de difícil definição, por melhores que sejam os indicadores socio-económicos).
Sabia e confirmei. Não ouvia a minha língua. Nunca acordava com a minha luz. E ninguém abria as janelas demanhã para deixar entrar o ar ou para sacudir tapetes. Conclui cedo que língua, luz e comportamentos do quotidiano são os principais factores de identidade nacional. e que seria sempre um estrangeiro nesse meu novo país. Mas estas são as nossas coisas íntimas a afastarem-nos dos outros. Depois existem as coisas que afastam os outros de nós. Dizer Portugal pode afastar. No estrangeiro é mais fácil lermos nos olhos dos outros o que é ser português. Percebemos como o olhar de curiosidade face ao "estrangeiro" se transforma em esgar de irmandade ou desprezo, de admiração ou pesar, de confiança ou temor. A sul do Equador, à conta da História, todos esses sentimentos são possíveis. Mas a Norte prevalece a brandura. A brandura dos nossos comportamentos, que gera nos outros brando respeito, brando desprezo, brando pesar. Variantes de um enorme desconhecimento. Concluí que ser português é também sentir brando orgulho de ser português. E isso é que nunca quis ou soube aceitar. Não quis aceitar que numa metrópole onde vive mais de um milhão de portugueses não existisse uma escola ou um liceu português, não quis aceitar que fosse tão difícil encontrar autores portugueses traduzidos, não quis aceitar que nenhuma marca portuguesa fosse comercializada em hipermercados ou outros estabelecimentos comerciais (para além das ditas típicas mercearias portuguesas), não quis aceitar nenhuma referência ao nosso país em qualquer jornal ou emissão televisiva (a não ser para falar de uma ponte que ruiu ou de incêndios que se alastram, ou de escândalos casapianos!), e acho que nunca vou aceitar.
Para quem está longe, a ver pelas emissões televisivas "internacionais", ser português é gostar de fado, de Fátima e de futebol, para esquecer a miséria. Por acaso, para quem cá vive, às vezes também parece que é assim. Mas só parece. Já sabemos que somos mais que isso. E este quadro da Paula Rego é apenas um espelho do passado. mesmo que sejam muitos os tempos da nossa época. Agora somos os que estão no meio do globo, na confluência. da História e ventos do Sul com a História e ventos do Norte. entre o passado e o futuro. E por isso somos únicos.

Será assim tão difícil inverter as correntes? Aceitarmos "civilizar-nos" com os povos que falam a nossa língua, e ao mesmo tempo, entrar sem brandura nos centros que nos vêem como periferia. num movimento que reforce a lusografia, a cultura e a economia. Para que esta unicidade ("fractal") nos sirva para alguma coisa...


P.S.: dou-me conta que, mais que viver entre o passado e o futuro, somos aqueles que estão sempre à espera que o presente passe.

Comentários

Lilly,
como te percebo, em ambas as vertentes: também eu nasci em Angola (mas nunca mais lá voltei, tenho de o fazer), e também sinto essa "identidade" portuguesa no estrangeiro.

É uma questão de postura e mentalidade... os portugueses acham que são sempre os coitadinhos e pequeninos. É preciso ousadia e pisar qualquer lugar do mundo com ousadia, respeito e espírito vencedor.

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