A invenção do amor
O jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o clímax
e a polícia poderá cumprir o seu dever.
(...)
Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócio
esperas de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das pressianas
constroem com urgência o universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los
...
In a invenção do amor e outros poemas de Daniel Filipe
Ed. Presença, Colecção Forma
Comentários
Lilly, não conhecia esse poeta, obrigado por presentear com belas palavras, adorei.
(=
Colocado por: Bill | fevereiro 21, 2007 03:07 AM
Bill, o Daniel Filipe é um poeta cabo-verdeano. Deixo-lhe este link (todo o site é muito interessante):
http://www.triplov.com/poesia/daniel_filipe/index.htm
"A invenção do amor" é um poema muito belo e longo (24 páginas no meu livro) que fez furor nos anos 60.
beijo
Colocado por: Lilly Rose | fevereiro 23, 2007 03:42 AM
sorry, "caboverdiano".
Colocado por: Lilly Rose | fevereiro 23, 2007 03:45 AM