
No meio dos campos, aparecem os abrigos. Para se abrigarem das chuvas, do frio ou do calor, para guardar as ferramentas do trabalho, os abrigos em pedra vão aparecendo de longe a longe. Há tempos, inspiraram um conto meu, que aqui volto a publicar.
O abrigo
Era eu pequeno, ainda não andava na escola, vivia numa casa afastada da povoação, quando via passar a D. Emília, levando as ovelhas para o monte. Com ela ia Inês, a menina da trança, morena de olhos negros. Diziam que era filha de um cigano que passara por aquelas redondezas, mas a mãe nunca revelou quem era o pai. De vez em quando ia com elas, quando a minha mãe tinha que ir a algum lado sem mim.
Entramos no mesmo ano na escola, éramos os melhores amigos. Os outros miúdos diziam que éramos namorados. Por vezes, chamavam-lhe cigana, e eu, furioso, defendia-a. Ainda hoje guardo algumas cicatrizes desses tempos.
Acabada a instrução primária, cada um foi para a sua escola (eu para a preparatória da cidade, ela para a telescola). Mas, acabada a escola, juntávamo-nos e continuávamos os melhores amigos do mundo.
Depois, enquanto eu fui para a escola secundária, ela emigrou com a mãe para França. Perdi a minha amiga predilecta durante quase todo o ano mas, chegado o mês de Agosto, matávamos todas as saudades.
Enquanto os anos passavam, fomos crescendo e a nossa amizade também, começando a transformar-se em algo mais, se bem que continuasse a ser uma relação de amizade. O amor, esse era platónico.
Até que um dia, tínhamos ambos 18 anos, ia eu entrar na Universidade e ela ia voltar para França, fomos até ao monte onde ela guardara ovelhas. E, acreditem ou não, foi a primeira vez que os nossos lábios se juntaram num longo beijo, no abrigo onde tantas vezes nos abrigáramos da chuva e do vento.
Esta foi a última vez que nos vimos durante 15 longos anos. Escrevemo-nos durante algum tempo, mas ao fim de ano e meio as cartas pararam de circular. Já não me recordo quem escreveu a última, mas elas pararam. Ela tinha começado a trabalhar e não tinha férias em Agosto, pelo que nos deixamos de nos ver. Depois, também deixou de vir a Portugal.
Fui sabendo notícias pela minha mãe, ao mesmo tempo que as nossas vidas iam decorrendo. Ela juntou-se com um francês, e já tinha uma filha. Eu também acabei por casar e ter uma filha. Chamei-lhe Inês.
15 longos anos depois, já formado e de volta à minha terra, ela voltou, com a filha e com o seu companheiro. Evitei encontrá-la durante vários dias. Mas, no dia da festa foi impossível evitar. Os olhos fixaram-se e não mais se largaram, mesmo que disfarçassem a cumplicidade.
A minha mulher, fruto da cidade, e o seu "franciú", tipo empertigado, não eram dados a estas festanças, e acabaram por abandonar a festa mais cedo. Foi o pretexto para a convidar para dançar. E dançamos toda a noite, sem cessar. Falámos de tudo e mais alguma coisa, mas ficou tanto por dizer... Acabada a festa, cada um foi para o seu lar. Desejámos felicidades um ao outro, pensado que não nos veríamos mais nesse Verão.
No dia seguinte, fui até ao monte, impelido por uma vontade estranha. Lá estava ela, recordando outros tempos. A paixão foi mais forte, esquecemos o mundo e, naquele abrigo, entregamo-nos, mutuamente, desvairadamente, como se o mundo fosse acabar.
O resto do Verão subimos o monte sempre que pudemos. Quando um de nós ficava sozinho deixava uma marca numa fraga existente ao lado do abrigo. E sempre que nos encontrávamos, o mundo parava.
Até que veio o dia da despedida. Sabíamos que tinha sido um Verão lindo, mas as nossas vidas continuavam. Chorámos juntos, mas prometemos que guardaríamos sempre aquele Verão.
No Verão seguinte, ela voltou. Enviou-me uma mensagem, em que pedia que fosse visitá-la ao abrigo. Fui, sem saber o que me esperava. Ela disse que decidira voltar de vez. Fiquei perplexo.
Ouvi um choro lá dentro. Ela disse:
- Deve querer conhecer o pai.
O meu coração bateu acelerado, enquanto ela voltava com um bebé pequeno nos braços. Fiquei sem saber o que fazer, o tempo parou, naquele abrigo, onde o tempo sempre parara.
Este dia marcou uma reviravolta na minha vida. Ela não me exigiu nada, só queria que eu soubesse que o nosso amor tinha dado frutos. Mas eu não podia deixar que, tal como a acontecera com ela, o filho não soubesse quem era o pai. E acima de todos os problemas e inconvenientes que esta situação viria a causar, o amor teria sempre que vencer, ou não seria verdadeiro. Ali, no abrigo, não havia dúvidas...