A vida irritantemente simples de Zeca Lado (8.º mini-episódio)
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Zeca Lado, devido ao seu salário flamejante (assim ele lhe chamava, por arder rapidamente), não tinha ainda podido comprar um automóvel. Mas não importava, tinha a sua querida e imbatível Zundapp. Aquela mota era um espectáculo, nunca o deixava ficar mal. E mesmo quando, num assomo de rebeldia, o atirava ao chão, uma conversa amena fazia-a voltar à razão e portar-se condignamente.
Para Zeca a Zundapp era uma amiga inseparável. Quando ela ia para a revisão consolava-a durante longas horas, dizendo-lhe que tudo ia correr bem, que ia ficar como nova. Levava-a aos melhores postos de gasolina, pois preocupava-se com a sua alimentação. Chegava ao ponto de, no Inverno, para ela não se constipar, lavá-la na sua banheira.
Mas a altura em que eles se sentiam mais próximos era quando chovia. Zeca Lado sempre fora ensinado que um homem nunca chora, o que ele cumpria à risca nos momentos de alegria e de tristeza. Por isso, quando chovia, os dois partiam sem rumo, para que ele pudesse deixar fluir as suas emoções, encoberto pelas gotas de água caídas do céu. E se a chuva escondia as lágrimas, o barulho da Zundapp abafava os soluços, numa cumplicidade inigualável.