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O realejo

7 da manhã. A mãe já saíra para apanhar o comboio para o emprego, deixando-lhe um beijo na testa enquanto ele fingia ainda dormir. O pai mira-o da fotografia da mesinha de cabeceira. Abre a gaveta de onde tira o seu presente do oitavo aniversário, o último que festejou antes de o pai morrer: um realejo.

Não é um realejo qualquer. Tinha já pertencido ao seu avô, tendo passado para o seu pai. Este, sabendo que estava perto do fim da sua vida, ofereceu-lho e ensinou-lhe a tocar as mais belas modas. Foi o que lhe ficou do pai, juntamente com as histórias de países distantes que, enquanto marinheiro, visitara.

Entretanto, passaram 3 anos. Todos os dias, a mãe sai de casa às 6 da manhã e só volta às 8 da noite. De manhã, deixa-lhe o pão e o leite na mesa, à noite comem a sopa com broa, por vezes algum petisco extra, e conversam sobre a escola. Ele mente, escondendo da mãe o facto de raramente ir lá. Já sabe ler e escrever, quer é conhecer o mundo, como o pai fizera.

Assim, depois do pequeno-almoço, pega no realejo e sai de casa. Os seus primeiros passos seguem na direcção da rua central, onde ajuda o Sr. Santos a carregar a mercadoria que chega ao armazém, a troco de dois cigarros e de uma saqueta de cromos de futebol. O resto da manhã passa-o na escadaria da estação do metro, tocando o realejo enquanto algumas moedas caem no chapéu e alguns transeuntes correspondem ao seu pedido de cigarros. De vez em quando aparecem os polícias e estragam-lhe o negócio. Mas hoje tudo correu bem, ganhou 4 euros e 3 cigarros.

O almoço é na casa da madrinha. Esta preocupa-se com ele. Quando vê que a roupa ou os sapatos estão mais gastos, aparece com um saco de roupa e calçado que pertencera ao filho. Também lhe ralha por saber que ele não vai à escola. Já tentara de tudo, chegou a levá-lo lá pelas orelhas, mas acabou por desistir, perante a persistência do afilhado. Contudo, ocultou sempre o facto da comadre, já carregada de problemas.

A tarde sempre foi variada. Quando chove, mete-se no shopping onde embacia as vitrinas com modelos de barcos. Se faz sol, compete com os frequentadores da taberna do Sr. Guilhermino, poucas vezes perdendo no bota-abaixo. Noutras ocasiões vai ganhar mais algum dinheiro, com o seu realejo.

Outras vezes, como hoje, vai para o cais, tocar as modas que o pai lhe ensinou, e ver os barcos, melancolicamente. Num deles, quando tiver o dinheiro suficiente, partirá um dia, rumo ao desconhecido.

(conto publicado há exactamente 1 ano, também porque era dia da criança)

Comentários

Parabéns pelo blog!
Excelente conteúdo!

Visitem também:

http://aguia-de-ouro.blogspot.com/

Futebol e política num só!
Obrigado!q

To,
obrigado.
O nome do teu blog é que me deixa um pouco saudoso, faz-me lembrar que, há algum tempo, passei pelo antigo Cinema Águia de Ouro em ruínas :-(
Mas, não quero arruinar a tua primeira vinda aqui, por isso, parabéns pelo blog, e vai aparecendo. :-)

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