Necrologia

Eu ainda sou do tempo em que para falar de livros havia um programa do Francisco José Viegas, altas horas da noite, num daqueles canais que quase ninguém vê e que, mais tarde, veio a ter uma continuadora com a Barbara Guimarães na SIC Notícias. Eu que até não desgosto da Judite de Sousa, ela fala “sopinha de massa” tal como eu o que me deixa extremamente feliz (estás a ver, não sou o único?), deu-lhe para, de há uns tempos a esta parte, incluir no meio de algumas interessantes – para mim nem sempre bem conduzidas – entrevistas, conversas com escritores de livros. O Viegas e a Bárbara não precisam de ficar roídos de inveja, quer dizer, isto sou eu que digo, porque apesar de tudo (neste tudo inclui-se o facto de eu já ter levado grandes barretes ao seguir sugestões deles [bolas, tantos parêntesis]), a Judite, nas entrevistas sobre livros está a alguns furos-luz desses outros dois confrades. Se entrevistar Carrilho sob o seu, dele, signo da verdade, ou Santana Lopes para expor a sua enxurrada de acusações, já tinha sido uma penosa tarefa, principalmente para os telespectadores, entrevistar Zita Seabra para falar do seu último livro foi apenas um exercício para pintar com uma cor menos mórbida as negras cores da necrologia. Porque foi uma entrevista apenas para falar de mortos. Muitos minutos para falar de Cunhal e não pelas melhores razões, muitos outros para falar do Comunismo que, apesar de alguns estrebuchos na China, na Coreia ou em Cuba foi morto e enterrado em quase todo o mundo, para falar do Partido Comunista que enquanto partido fortemente enraizado no marxismo-leninismo, no centralismo democrático, na ditadura do proletariado e no internacionalismo proletário, já na Soeiro Pereira Gomes faleceu faz tempo e para falar dela, Zita Seabra, vazia de causas ou pior ainda numa luta de contra-causas, como um afogado à procura de uma bóia de salvação, está, politicamente falando, completamente finada. Tal como Carrilho, ou Santana, a quem a opinião pública e publicada ainda concede o benefício de poder vir a ressuscitar ao terceiro, não direi dia, mas quem sabe congresso do PSD, Zita Seabra é quase já só um ser político mumificado.