Nacionalidade por Francisco José Viegas



«Não sei o que os tribunais terão a opor a gente que anda nos transportes públicos, trabalha e cumpre as suas obrigações como cidadão, há-de acabar por se tornar torcedor do Sporting ou do FC Porto, come bitoque ou pastel de nata, fala português, tem os seus filhos numa escola portuguesa e não tenciona ir embora. A legalização de estrangeiros imigrantes é uma coisa; inteiramente diferente é a atribuição da nacionalidade. Mas esses factores efectivos são os que conheço como decisivos. Hão-de cantar o hino, hão-de saber quem eram os reis da primeira dinastia, hão-de cozinhar bacalhau e, quem sabe, emigrar para França. Alguns hão-de ter nomes comuns, como Nelson Évora (nasceu na Costa do Marfim, tem pais cabo-verdianos, vive em Portugal desde os seis anos e adquire a nacionalidade portuguesa aos dezoito), outros chamar-se-ão Bosingwa (nasceu em Kinshasa) ou Obikwelo (nasceu na Nigéria). É isto a alma portuguesa, senhores.»
E eu acrescento, assim os fizemos, assim os acolhemos. A estes e aos outros, os menos famosos e até aqueles que pouco ou nada têm para nos sentirmos orgulhosos.